ANÁLISE DE MERCADO — Etanol e Biocombustíveis | O Brasil vive em 2026 um momento de inflexão histórica no mercado de biocombustíveis. A produção combinada de etanol — de cana-de-açúcar e de milho — deve superar 43 bilhões de litros na safra 2026/27, crescimento estimado entre 7,9% e 14% em relação ao ciclo anterior, dependendo do mix de produção das usinas. O etanol de milho, que chegou ao mercado comercial apenas em 2017, já responde por 27% da produção do Centro-Sul e deve ganhar mais 3 bilhões de litros de capacidade adicional somente em 2026 com a entrada de 16 novas plantas.
Ao mesmo tempo, o governo federal avança na aprovação do E32 — elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% —, medida que, quando aprovada pelo CNPE, vai criar demanda adicional de 1 bilhão de litros de etanol anidro por ano. E no horizonte mais distante, o Combustível do Futuro prevê chegar ao E35 nos próximos anos.
Esta análise examina os vetores que moldam o mercado de etanol e biocombustíveis no Brasil em 2026, o impacto do E32, o papel crescente do etanol de milho, os riscos de excesso de oferta e as oportunidades que esse cenário cria para o agro nacional.
Etanol e Biocombustíveis: O Brasil como potência global
O Brasil é o segundo maior produtor mundial de etanol, atrás apenas dos Estados Unidos. A diferença é que o etanol americano é feito de milho e o brasileiro é majoritariamente de cana-de-açúcar — com a vantagem ambiental do etanol de cana, que emite até 70% menos CO₂ que a gasolina no ciclo de vida completo, contra 40% do etanol de milho americano.
O país tem uma estrutura única no mundo: uma frota de mais de 40 milhões de veículos flex fuel, que podem rodar com qualquer proporção de etanol e gasolina; a mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina (hoje em 30%); e um mercado de etanol hidratado para consumo direto que cresce de forma consistente. Essa combinação cria uma demanda interna estruturalmente robusta — diferente de outros países produtores que dependem exclusivamente da exportação.
Em 2024, o setor sucroenergético registrou o maior volume de açúcar exportado da história — 38,3 milhões de toneladas embarcadas para mais de 150 países, gerando US$ 18,6 bilhões em divisas. O etanol hidratado avançou 33% nas vendas internas. Esses números confirmam o papel estratégico do setor na economia brasileira.
O E32: o que é, por que importa e quando vai acontecer
A elevação da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina de 30% para 32% — o E32 — é a medida mais aguardada pelo setor sucroenergético em 2026. O vice-presidente Geraldo Alckmin sinalizou que ‘está tudo encaminhado’. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, expressou ‘grande possibilidade’ do avanço. Os testes técnicos já concluíram a viabilidade. O que falta é a reunião do CNPE e a assinatura da portaria — que pode ocorrer a qualquer momento.
A justificativa para o E32 é tripla. Econômica: o etanol anidro estava mais barato que a gasolina importada mesmo antes da alta do petróleo pelo conflito no Oriente Médio — e com o petróleo elevado, essa diferença aumenta. O Brasil importa cerca de 15% da gasolina consumida, dependência que custa caro em câmbio e em vulnerabilidade geopolítica. Ambiental: cada litro de etanol substituto da gasolina reduz as emissões de CO₂ em aproximadamente 70%, alinhando o Brasil às metas do Acordo de Paris. De segurança energética: menos importação de gasolina significa menos exposição às oscilações do petróleo e ao Estreito de Ormuz.
O impacto do E32 no mercado é direto. Segundo a NovaBio (Associação de Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia), a medida vai acrescentar aproximadamente 1,052 bilhão de litros de etanol anidro ao mercado — crescimento de 6,6% na demanda. O setor afirma ter capacidade para atender sem problemas. A implementação deve ser feita em regime excepcional, com vigência inicial de 180 dias, prorrogável por igual período — um mecanismo de flexibilidade caso o mercado precise de ajuste.
O etanol de milho: a nova fronteira que já é realidade
Em 2017, quando a FS abriu a primeira usina exclusivamente de etanol de milho no Brasil, em Lucas do Rio Verde (MT), muitos no setor de cana duvidaram da escala. Menos de dez anos depois, o etanol de milho já responde por 27% da produção total no Centro-Sul e deve ultrapassar 12 bilhões de litros na safra 2026/27, segundo a Unem.
O crescimento é estrutural. O Rabobank projeta que mais de 3 bilhões de litros de capacidade adicional de etanol de milho entrarão em operação somente em 2026, com 16 novas plantas previstas para iniciar operações, segundo a ANP. A StoneX estima crescimento de 7,9% na produção combinada de etanol de cana e milho em 2026/27 — com o milho puxando o crescimento.
A lógica do etanol de milho é diferente da da cana. A cana é uma planta perene, com ciclo de cinco anos, e as usinas são fixas em suas regiões. O milho é uma cultura anual e flexível — pode ser cultivado em grande parte do Brasil e armazenado por longos períodos, dando às usinas de etanol de milho maior flexibilidade logística e de abastecimento. Para o agro nordestino, a expansão do etanol de milho no Centro-Oeste cria demanda adicional interna para o cereal — o que pode oferecer suporte às cotações em momentos de excesso de oferta.
A aquisição de 40% da FS pela AMAGGI por US$ 100 milhões é o sinal mais claro de que os grandes grupos do agro brasileiro estão apostando no etanol de milho como negócio de longo prazo.
Etanol e Biocombustíveis: O risco de excesso de oferta e o equilíbrio do mercado
Nem tudo são boas notícias. Com a oferta de etanol crescendo mais rápido que a demanda, analistas alertam para o risco de pressão sobre os preços. A StoneX estima que a relação etanol/gasolina pode cair abaixo de 65% — o nível a partir do qual o etanol hidratado se torna mais vantajoso que a gasolina para o consumidor nos postos. Quando essa relação cai demais, as margens das usinas ficam comprimidas.
O E32, quando aprovado, resolve parte desse problema ao criar demanda adicional garantida. O E35, ainda no horizonte do Combustível do Futuro, vai criar mais 1,5 bilhão de litros adicionais. E o crescimento orgânico da frota flex fuel — que adiciona mais consumidores de etanol a cada ano — sustenta a demanda de longo prazo.
O equilíbrio entre oferta e demanda vai depender da velocidade de aprovação do E32, do ritmo de entrada das novas plantas de etanol de milho e do comportamento do petróleo — que, enquanto permanecer elevado pelo conflito Irã-EUA, sustenta a paridade favorável ao etanol.
Biodiesel e o horizonte do B16
O etanol não é o único biocombustível em expansão. O biodiesel — feito principalmente de óleo de soja e gordura animal — também está em fase de expansão acelerada. O Brasil atingiu o B14 (14% de mistura obrigatória no diesel) em 2023 e caminha para o B15 e, posteriormente, o B16, com testes em andamento para validação técnica.
Para o agro nordestino, o biodiesel é especialmente relevante para a suinocultura e a avicultura, que dependem de frota diesel para transporte de grãos e animais. A expansão do B16 vai reduzir o custo de diesel fóssil e ampliar a demanda por óleo de soja — que, por ser uma commodity global, tem repercussão direta nas cotações da oleaginosa.
Recomendações práticas para o produtor e o setor
- Produtores de cana no Nordeste: o ambiente de maior demanda por etanol anidro (E32 em perspectiva) é o mais favorável dos últimos anos — explorar as condições dos contratos de fornecimento para a safra 2026/27
- Usinas sucroenergéticas: o mix de produção deve priorizar o etanol anidro, especialmente após a aprovação do E32 — o mercado de açúcar segue pressionado pela maior oferta global
- Produtores de milho: a expansão do etanol de milho cria demanda interna adicional — produtores próximos a usinas devem verificar as condições de contratos de venda direta
- O E32, quando aprovado, vai criar 1 bilhão de litros de demanda extra de etanol anidro — posicionamento prévio nas negociações de contratos de fornecimento é vantagem competitiva
- Monitorar a aprovação do E32 pelo CNPE — a portaria pode ser publicada sem aviso prévio e terá efeito imediato no preço do etanol anidro
- Para o agro nordestino: o Mercosul-UE abre cotas de etanol para a Europa com tarifa reduzida — usinas de PE, AL e PB têm vantagem logística (menor distância até os portos europeus) para explorar esse mercado
Conclusão
O Brasil de 2026 está construindo sua soberania energética num ritmo que o mundo acompanha com interesse. O etanol — seja de cana, de milho ou de outras matérias-primas — é o instrumento central dessa transição. Enquanto o Oriente Médio queima e o petróleo sobe, o Brasil planta cana, colhe milho e produz combustível renovável a preço competitivo.
O E32 é inevitável. A questão não é se vai acontecer, mas quando. E quando acontecer, vai ser mais um capítulo de uma história que começou nos anos 1970, com o Proálcool, e que ainda está longe do fim.
Para o produtor rural — especialmente no Nordeste —, entender o mercado de biocombustíveis não é opcional. É parte essencial da estratégia de diversificação de receita e de proteção contra a volatilidade das commodities agrícolas.
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