Enquanto a Expocrato exibe o que há de mais forte na pecuária do Cariri, outro produto da região vem conquistando reconhecimento nacional silenciosamente: o mel. Segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal do IBGE, o município de Santana do Cariri foi o maior produtor de mel do Brasil em 2023, com quase 1,2 milhão de quilos produzidos — sendo um dos apenas três municípios do país a ultrapassar a marca de 1 milhão de quilos naquele ano. Em 2024, o município produziu 940 mil quilos, respondendo por 15,5% de toda a produção cearense de mel. Consequentemente, o desempenho de Santana do Cariri impulsionou a posição do Ceará no ranking nacional: o estado subiu da 8ª para a 5ª posição entre os maiores produtores de mel do Brasil.
Nesse sentido, o crescimento é impressionante: a produção estadual cresceu 241,09% entre 2017 e 2024, alcançando 6,05 milhões de quilos no último ano da série, com valor de produção de R$ 74,1 milhões, segundo dados do Ipece. Para um estado que há menos de dez anos estava na 8ª posição no ranking nacional, a ascensão à 5ª posição em menos de uma década é um dos movimentos mais expressivos do agronegócio cearense recente.
Por que o Cariri produz um mel tão valorizado
O clima ameno e a vegetação preservada da Chapada do Araripe, aliados à abundância de água, criam condições consideradas ideais para a apicultura. Produtores da região, muitos deles anteriormente dedicados a culturas como abacaxi, mandioca e feijão, migraram nos últimos anos para a criação de abelhas, atraídos pela rentabilidade do negócio frente à pecuária tradicional. Consequentemente, a equação econômica é reveladora: um hectare que comportaria um único boi pode abrigar até 50 caixas de abelhas, cada uma produzindo em média 30 kg de mel por ano — uma relação que tem se mostrado significativamente mais lucrativa para pequenos produtores familiares.
Nesse sentido, um dos méis mais valorizados da região é o de aroeira — hoje reconhecido internacionalmente pela qualidade —, que ajudou a consolidar municípios como Santana do Cariri na liderança nacional através do fortalecimento do cooperativismo e do associativismo entre apicultores locais. O mel do Cariri não competiu apenas em volume: competiu em qualidade, identidade territorial e organização coletiva — os mesmos atributos que o Programa Exporta Mais Brasil do Sebrae/CE busca potencializar para posicionar o mel cearense nos mercados europeus.
O gargalo logístico e o potencial real ainda maior do que os números mostram
Há, porém, um dado preocupante que acompanha o sucesso: segundo a Federação Cearense de Apicultores (Fecap), os números oficiais do IBGE podem estar subestimando a real dimensão da produção cearense. Parte significativa do mel produzido no Ceará — especialmente nas regiões dos Inhamuns e Parambu — é vendida para o Piauí, de onde acaba sendo exportada e contabilizada como produção piauiense. Como o Ceará ainda não possui entrepostos próprios de exportação, produtores dependem de atravessadores do estado vizinho, o que eleva custos logísticos e distorce as estatísticas oficiais de produção. Consequentemente, a posição real do Ceará no ranking nacional pode ser ainda mais expressiva do que o 5º lugar já confirma.
Nesse sentido, está em andamento um projeto para a criação de uma central de cooperativas em Maracanaú, batizada de Centercop, que pretende organizar a exportação direta do mel cearense, reduzindo a dependência de intermediários piauienses e permitindo que a produção do Cariri e de outras regiões do estado seja corretamente contabilizada e comercializada com maior valor agregado. Para o apicultor do Cariri que visita a Expocrato nesta semana, o Empório da Agricultura Familiar e as mesas do BNB com condições do Plano Safra 2026/27 — incluindo a linha de sociobiodiversidade a 1% ao ano — são o caminho mais direto para formalizar, escalar e capitalizar a produção de mel que já colocou a região no topo do ranking nacional.
O que muda na prática para o produtor
- Apicultores do Cariri: acessar o BNB na Expocrato com linha de sociobiodiversidade (mel e produtos da Caatinga) a 1% ao ano — a taxa mais baixa do Plano Safra 2026/27
- Cooperativas apícolas: investigar o projeto Centercop em Maracanaú como caminho para exportação direta e eliminação dos atravessadores piauienses
- Produtores de mel de aroeira: buscar orientação do Sebrae/CE sobre o Programa Exporta Mais Brasil para posicionamento nos mercados europeus
- Verificar junto ao Ipece e à Fecap os dados atualizados de produção e os programas de apoio à apicultura cearense em 2026
- Avaliação econômica: comparar o retorno de 50 caixas de abelhas (30 kg/caixa) vs pecuária extensiva no mesmo hectare — a conta favorece a apicultura no Cariri
Próximos passos
O Portal AgroMais acompanha a apicultura cearense e os desdobramentos do Programa Exporta Mais Brasil para o mel do Cariri.
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