O Brasil fechou o ano-safra com mais de 38 milhões de sacas de café exportadas — queda de quase 16% em volume em relação à safra anterior — mas a receita alcançou o segundo melhor desempenho da história, com mais de US$ 14 bilhões. O Cecafé documenta os números exatos: 38,462 milhões de sacas de 60 kg exportadas para 125 países nos 12 meses do ano-safra 2025/26, com receita de US$ 14,595 bilhões — queda de apenas 1% em relação à safra 2024/25. O A Força do Agro identificou os quatro fatores que explicam a queda do volume: a redução dos estoques brasileiros após os embarques recordes de 2024, os impactos climáticos adversos sobre a safra de 2025, os gargalos logísticos nos portos que impediram o embarque de centenas de milhares de sacas adicionais — e o tarifaço americano de 2026. O dado mais revelador dos impactos geopolíticos é o histórico: pela primeira vez desde a safra 2009/10, os Estados Unidos deixaram de ser o maior comprador do café brasileiro. A Alemanha assumiu a liderança com 5,188 milhões de sacas (13,5% das exportações). Consequentemente, a safra 2025/26 do café brasileiro demonstrou o mesmo padrão que a soja demonstrou esta semana: preços mais altos compensam volume menor, e a diversificação de mercados atenua o impacto do tarifaço.
Nesse sentido, o presidente do Cecafé, Márcio Ferreira, foi preciso na avaliação: ‘esse cenário teria permitido uma receita recorde caso os entraves logísticos não tivessem impedido o embarque de centenas de milhares de sacas.’ Para o produtor de café do Nordeste — nas serras cearenses de Baturité, Ibiapaba e Chapada do Araripe —, a mensagem do A Força do Agro de ontem é direta: a queda de 15,7% no volume não foi causada por falta de demanda internacional, mas por gargalos do lado da oferta e da logística brasileira. A demanda existe. O mercado europeu que cresceu está pagando prêmio. O que falta é a organização da cadeia para acessar esse mercado.
O tarifaço americano e a mudança histórica no mapa do café brasileiro
A mudança do ranking de compradores do café brasileiro — com a Alemanha assumindo a liderança pelo tarifaço americano pela primeira vez em 17 safras — é o dado geopolítico mais concreto disponível para entender como o protecionismo americano de 2026 está redesenhando os fluxos de comércio do agronegócio brasileiro. O top 5 de destinos na safra 2025/26 ficou assim: Alemanha (5,188 mi sc, -20,6% vs safra anterior mas ainda crescendo a participação no total), EUA em posição abaixo da liderança, Itália (3,267 mi sc, queda de 8,1%), Bélgica (2,330 mi sc, queda de 24,7%) e Japão (2,300 mi sc, leve alta de 0,2%). Mesmo com os europeus comprando menos em volume por conta da disponibilidade reduzida de café brasileiro, eles cresceram em participação relativa — o que confirma que o redirecionamento de destinos iniciado com o tarifaço americano é real. Os mercados europeus pagam prêmio por qualidade, rastreabilidade e sustentabilidade — e o café brasileiro certificado e especial, que respondeu por 19,2% das exportações totais em 2025/26, acessa esses mercados com margens melhores do que o café de commodity. Consequentemente, o tarifaço americano criou um incentivo estrutural para que o Brasil desenvolva a cadeia de cafés de qualidade — e o produtor nordestino das serras tem condições de se posicionar exatamente nesse nicho.
Nesse sentido, o Money Times documenta que o impacto do tarifaço foi sentido diferentemente entre os tipos de café: o café arábica caiu 15,3% em volume, o conilon caiu 23,5% e o café solúvel se manteve em 3,874 mi sc. O café torrado e moído — o de maior valor agregado —, com apenas 56.860 sacas, ainda representa menos de 0,1% do total exportado. Para o produtor nordestino, a mensagem é clara: há muito espaço para subir na cadeia, tanto em qualidade do grão quanto em nível de processamento antes da exportação.
O que a safra 2025/26 do café ensina para o cafeicultor nordestino que planta para 2026/27
A safra 2025/26 do café brasileiro entrega três lições concretas para o cafeicultor das serras nordestinas que está planejando a produção de 2026/27. A primeira é que receita alta com volume menor é possível — e a única forma de conseguir esse resultado é com diferenciação de qualidade. Os 19,2% de cafés especiais e certificados nas exportações de 2025/26 foram os responsáveis por sustentar a receita próxima do recorde mesmo com volume 15,7% menor. A segunda lição é que a diversificação de mercados é proteção real: com os EUA aplicando tarifa de 25%, os produtores que tinham contatos com compradores europeus conseguiram redirecionar o produto sem perder receita. A terceira lição é que gargalos logísticos custam dinheiro real: o presidente do Cecafé estima que centenas de milhares de sacas ficaram no armazém por limitações portuárias — um custo invisível mas mensurável. Consequentemente, as três lições convergem para uma única recomendação para o cafeicultor nordestino das serras: investir em qualidade e rastreabilidade do grão, construir relacionamentos com compradores europeus via cooperativas ou associações regionais, e acompanhar os prazos de logística de exportação para não perder embarques por gargalo portuário.
Nesse sentido, o Senar Ceará ((85) 3306-6600) oferece cursos de beneficiamento e qualidade do café para cafeicultores serranos — o primeiro passo para quem quer acessar o mercado europeu que está crescendo como destino do produto brasileiro. O Sebrae Ceará orienta sobre como estruturar a exportação via cooperativas ou tradings especializadas. E a Embrapa Café (www.embrapa.br/cafe) publica regularmente estudos sobre variedades e técnicas de manejo que maximizam a qualidade do grão nas condições do semiárido nordestino.
O que muda na prática para o produtor
- Cafeicultores das serras nordestinas: investir em colheita seletiva (apenas cereja maduro) e secagem rastreável — o diferencial de qualidade que os mercados europeus pagam prêmio
- Buscar certificação de comércio justo (Fair Trade), orgânica ou de qualidade sensorial (SCA) para acessar o mercado alemão, italiano e belga que cresceu como destino do café brasileiro
- Contatar o Senar Ceará (85) 3306-6600 para cursos de beneficiamento e qualidade do café disponíveis no segundo semestre — o caminho mais acessível para subir na cadeia de valor
- Verificar com cooperativas cafeeiras regionais como estruturar exportação para os mercados europeus — a mudança de ranking confirmada pelo A Força do Agro #801 confirma que esses mercados estão comprando
- Acompanhar os dados mensais do Cecafé (cecafe.com.br) como termômetro da demanda global pelo café brasileiro — os dados de destinação confirmam quais mercados estão crescendo
Próximos passos
O Portal AgroMais acompanha o mercado de café e as oportunidades para o cafeicultor serrano nordestino.
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