Caprinovinocultura nordestina: 90% dos caprinos do Brasil estão aqui

O Nordeste brasileiro detém 90% do rebanho nacional de caprinos e 60% dos ovinos — e a maior parte desse rebanho está exatamente no semiárido cearense, paraibano, potiguar, pernambucano e baiano, nas mãos de famílias da agricultura familiar que criam caprinos e ovinos como atividade complementar à pecuária bovina há séculos. Mas o que muitos produtores nordestinos ainda não descobriram é que esse rebanho já é hoje a base de uma cadeia produtiva com múltiplos mercados — carne, leite, queijo, pele e couro — que crescem em ritmo mais rápido do que o rebanho. A Embrapa Caprinos e Ovinos, sediada em Sobral-CE, documenta que a Caprinovinocultura nordestina: 90% dos caprinos do Brasil estão aquis apresentam aptidão mista (carne e leite) no semiárido nordestino — e que os produtos derivados do leite caprino, em especial o queijo, têm apresentado grande aceitabilidade por parte dos consumidores nos mercados premium de todo o Brasil. A lógica do negócio é clara: enquanto o gado bovino sofre com a seca do El Niño — perdendo peso, aumentando o custo de suplementação e reduzindo a margem —, os caprinos e ovinos adaptados à Caatinga continuam produzindo com forragem nativa que o bovino não consegue aproveitar: palma forrageira, leucena, vagem de algaroba, feijão guandu e mameleiro. Consequentemente, a caprinovinocultura nordestina é o negócio que a Caatinga oferece ao produtor familiar com naturalmente — e que o mercado de queijo artesanal, carne caprina e couro está progressivamente valorizando.

Nesse sentido, o dado que revela o paradoxo da caprinovinocultura nordestina é este: o Nordeste tem 90% dos caprinos do Brasil, mas ainda não organizou plenamente a cadeia produtiva para capturar o valor que esses animais geram. A maioria dos produtores vende o animal vivo no mercado informal, sem rastreabilidade, sem certificação e sem acesso aos mercados premium que pagam mais pelo queijo de coalho de cabra com Indicação Geográfica ou pela carne caprina com certificação de origem. O potencial está no campo — a organização da cadeia é o próximo passo.

Os quatro mercados da caprinovinocultura nordestina — e o que cada um paga

A cadeia produtiva da caprinovinocultura nordestina tem quatro mercados com características e potenciais distintos. O primeiro é a carne caprina e ovina: a carne de cabra e de ovelha é a proteína tradicional da culinária nordestina — buchada, sarapatel, carne de sol caprina —, com demanda local firme e preços que o gado bovino não consegue oferecer em igual escala na região. A carne caprina tem teor de gordura mais baixo que a bovina, característica que abre portas para nichos de mercado premium em restaurantes de gastronomia regional e supermercados de alto padrão. O segundo mercado é o leite e seus derivados: o leite de cabra tem composição nutricional diferenciada — proteínas de menor tamanho que facilitam a digestão, sendo alternativa para pessoas com intolerância ao leite bovino — e é a matéria-prima do queijo de coalho de cabra, do iogurte caprino e dos probióticos, que a Embrapa documenta como o segmento de maior valor agregado disponível para a cadeia. O terceiro é o couro e a pele: a Embrapa Caprinos e Ovinos de Sobral documenta que o Brasil tem grande mercado potencial para produtos derivados das peles de pequenos ruminantes — calçados e vestuário com matéria-prima natural que o semiárido nordestino tem condições de produzir competitivamente. O quarto mercado é o turismo rural e a gastronomia: a visita a capris organizados, a degustação de queijos artesanais e a venda direta de produtos com certificação de origem são nichos que o Cariri cearense, com seus parques geológicos e circuitos de turismo rural, está progressivamente desenvolvendo. Consequentemente, o produtor nordestino que tem caprinos e ovinos no semiárido tem acesso a quatro mercados simultâneos — e pode migrar progressivamente do mais informal (venda de animal vivo) para o mais organizado (queijo com IG, pele certificada).

Nesse sentido, a Embrapa Caprinos e Ovinos em Sobral-CE é o principal centro de referência disponível para o produtor nordestino que quer organizar a cadeia produtiva da caprinovinocultura: desde raças adaptadas ao semiárido, passando por técnicas de manejo de pastagem nativa, até as formulações de queijo artesanal que atendem aos protocolos dos mercados premium. O Senar Ceará ((85) 3306-6600) oferece cursos de caprinovinocultura regularmente — e é o ponto de entrada mais acessível para o produtor que quer dar o próximo passo.

El Niño e a vantagem do caprino e ovino sobre o bovino no semiárido

Com o Super El Niño projetado para o pico no quarto trimestre de 2026 — 80% de probabilidade de intensidade muito forte —, o semiárido cearense vai enfrentar o período de seca mais intenso dos últimos anos entre setembro e novembro. Nesse contexto, a comparação entre bovinos, caprinos e ovinos no semiárido é especialmente reveladora. Os bovinos precisam de pastagem de maior porte, consomem entre 8% e 10% do seu peso vivo em matéria seca por dia e têm dificuldade de aproveitar a vegetação nativa da Caatinga durante a seca. Os caprinos e ovinos, por outro lado, são ruminantes adaptados ao semiárido por séculos de seleção natural e artificial: consomem forragem nativa da Caatinga — palma forrageira, leucena, algaroba, feijão guandu, mameleiro — que o bovino não aproveita com a mesma eficiência, têm metabolismo adaptado à escassez hídrica e conseguem manter a produção de leite e a condição corporal em condições climáticas adversas que o bovino não suporta sem suplementação. Consequentemente, o pecuarista nordestino que está gerenciando a seca do quarto trimestre de 2026 com bovinos tem um custo de manutenção crescente — suplementação, forragem comprada, água por carro-pipa. O criador de caprinos e ovinos, com forragem nativa da Caatinga disponível, tem um custo de manutenção estruturalmente mais baixo no mesmo cenário de seca.

Nesse sentido, o Plano Safra 2026/27, com o recorde de R$ 72 bilhões de orçamento confirmado pelo BNDES nesta quarta-feira, tem linhas específicas para pequenos ruminantes via Pronaf — com taxas de 1% a 6% ao ano para o criador de caprinos e ovinos da agricultura familiar nordestina. O produtor que combina a vantagem climática dos pequenos ruminantes (adaptação ao El Niño) com o crédito do Plano Safra (taxa de 1% a 6%) e a orientação técnica da Embrapa Caprinos e Ovinos de Sobral está construindo a base de uma atividade que vai prosperar no semiárido mesmo durante o pico da seca.

O que muda na prática para o produtor

  • Criadores de caprinos e ovinos do semiárido: verificar com a Embrapa Caprinos e Ovinos em Sobral-CE (www.embrapa.br/caprinos-e-ovinos) as raças mais adaptadas ao El Niño e as técnicas de manejo que reduzem o custo de manutenção durante a seca
  • Produtores que vendem animal vivo no mercado informal: perguntar ao Senar Ceará ((85) 3306-6600) sobre cursos de processamento de leite caprino e fabricação de queijo — o valor agregado do queijo vs o valor do animal vivo pode ser 3 a 5 vezes maior
  • Verificar com o BNB as linhas do Pronaf para pequenos ruminantes — taxas de 1% a 6% ao ano para a agricultura familiar nordestina que cria caprinos e ovinos (documentação: CAR, CCIR, DAP/CAF via Ematerce 0800 275 4111)
  • Caprins organizados com queijo artesanal: verificar com o Senar Ceará os procedimentos de registro do queijo de coalho de cabra junto ao Mapa e a possibilidade de Indicação Geográfica para o queijo cearense
  • Pecuaristas bovinos com custos crescentes no El Niño: avaliar a introdução de caprinos e ovinos no sistema como componente de menor custo de manutenção durante os meses de seca — a Embrapa em Sobral orienta sobre o sistema integrado

Próximos passos

O Portal AgroMais acompanha a caprinovinocultura nordestina e as oportunidades de mercado para o produtor familiar do semiárido cearense.

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Jakeline Diógenes
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