Café arábica recua com previsão de safra recorde — Conab projeta até 66,2 milhões de sacas

O café arábica negocia perto de seus menores níveis em meses, pressionado pela perspectiva de oferta robusta no Brasil para o próximo ciclo. Segundo a Conab, a safra brasileira de café 2026/27 deve atingir um recorde histórico de 66,2 milhões de sacas — com destaque para os 44,1 milhões de sacas de arábica, beneficiados pelas chuvas favoráveis registradas em Minas Gerais, principal região produtora do país.

Além disso, casas de análise internacionais já projetam números ainda mais otimistas. A StoneX elevou sua estimativa para um recorde de 75,3 milhões de sacas, enquanto a Marex Group projeta 75,9 milhões — superando inclusive a previsão anterior da Sucafina, de 75,4 milhões. Consequentemente, o mercado vem reprecificando as expectativas de oferta para baixo nos preços, na medida em que as projeções de safra seguem sendo revisadas para cima.

Café arábica: Por que os preços recuam mesmo com a colheita em andamento

A lógica do mercado de café é, em parte, contraintuitiva para quem não acompanha de perto: mesmo com a colheita atual ainda em curso, os preços já refletem as expectativas para o próximo ciclo. Nesse sentido, a confirmação de chuvas favoráveis em Minas Gerais desde o início do ano elevou progressivamente as estimativas de safra, pressionando os preços para baixo ao longo dos últimos meses.

Em contrapartida, a Cooxupé — maior cooperativa de café do Brasil, com forte presença no Sul de Minas — estima queda de 10% nas exportações de 2026, para aproximadamente 4,4 milhões de sacas, abaixo das 4,9 milhões de 2025. Essa redução de curto prazo na oferta é consequência direta da safra menor de 2025, e ainda pressiona os volumes de exportação no primeiro semestre de 2026 — mesmo com as perspectivas otimistas para a nova colheita.

Ademais, os traders têm observado que os produtores continuam retendo vendas na expectativa de preços mais altos, o que limita a disponibilidade imediata no mercado físico e cria uma dinâmica de preços mais complexa do que apenas ‘mais oferta, preços mais baixos’.

Tensões geopolíticas seguem como fator de sustentação de preços

Apesar da pressão da safra recorde, as tensões geopolíticas globais — incluindo riscos para rotas logísticas e aumento de custos de transporte — continuam fornecendo algum suporte aos preços do café. Nesse contexto, o acordo EUA-Irã, ainda incerto conforme declarações do próprio Trump nesta semana, é um dos fatores que mantém parte do prêmio de risco nas commodities agrícolas globais, incluindo o café.

Para o cafeicultor brasileiro, portanto, o cenário de médio prazo é de preços mais moderados em razão da safra recorde — mas a colheita atual ainda sustenta alguma firmeza pontual, especialmente diante das incertezas geopolíticas que seguem em aberto.

O que vem depois: a expectativa para 2027/28

Olhando mais adiante, o mercado já antecipa o potencial de uma produção ainda maior em 2027/28, que pode ultrapassar 80 milhões de sacas — desde que não ocorram eventos climáticos adversos, como geadas no próximo inverno ou novos períodos de seca entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027. Consequentemente, o cafeicultor que está planejando investimentos de médio prazo deve considerar esse cenário de oferta crescente ao avaliar a viabilidade de expansão de área ou de renovação de cafezais.

O que muda na prática para o produtor

  • Cafeicultores: avaliar a fixação de parte da produção em contratos futuros diante da perspectiva de preços mais moderados para o próximo ciclo
  • Monitorar o clima entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027 — geadas ou seca podem reverter a expectativa de safra recorde para 2027/28
  • Cooperativas: acompanhar a estimativa da Cooxupé de queda de 10% nas exportações de 2026 — pode indicar oportunidades de mercado para cooperativas menores
  • Para quem está planejando expansão de área: considerar que o cenário de oferta crescente projetado para os próximos ciclos pode pressionar margens
  • Acompanhar as atualizações da Conab sobre a safra 2026/27 — o próximo levantamento deve trazer mais precisão sobre os 66,2 milhões de sacas projetados

Próximos passos

A Conab deve publicar novo levantamento da safra de café 2026/27 nos próximos meses, com dados mais precisos sobre a colheita em andamento. O Portal AgroMais acompanha as cotações de café semanalmente.

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Jakeline Diógenes
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