A estratégia adotada pelos frigoríficos brasileiros de reduzir abates via férias coletivas diante do esgotamento da cota de exportação para a China está surtindo o efeito pretendido, segundo análise da Safras & Mercado. Consequentemente, ao reduzir a capacidade instalada, as indústrias controlam a oferta de carne no mercado doméstico e evitam queda ainda mais acentuada nos preços da arroba.
Nesse sentido, embora a arroba tenha acumulado recuo de mais de R$ 20 em duas semanas — saindo de patamares acima de R$ 350 para a faixa de R$ 332-334 em São Paulo —, o ritmo de queda foi mais moderado do que analistas projetavam num cenário sem a gestão ativa da oferta pelos frigoríficos.
Como a capacidade ociosa funciona como amortecedor de preços
Quando frigoríficos reduzem as escalas de abate via férias coletivas, dois efeitos simultâneos se produzem no mercado. Consequentemente, primeiro, a demanda por gado vivo para abate diminui, reduzindo a pressão compradora sobre os pecuaristas e permitindo que os preços caiam sem o agravante de frigoríficos precisando comprar a qualquer preço para manter as plantas operando. Segundo, a menor oferta de carne no mercado interno reduz a pressão vendedora no atacado e no varejo, evitando que a queda do preço ao consumidor seja tão acentuada que sinalizaria uma recessão de demanda no setor.
Nesse sentido, o analista Fernando Henrique Iglesias, da Safras & Mercado, resume bem a lógica: ‘O aumento da capacidade ociosa tem se tornado prática comum entre frigoríficos no mês de julho, avaliando as consequências do esgotamento precoce das cotas chinesas, fazendo com que a indústria precise se adequar a uma nova realidade de demanda.’ Essa gestão ativa contrasta com ciclos anteriores de esgotamento de cota, quando a falta de coordenação da indústria gerou quedas mais abruptas de preços.
O que esperar nas próximas semanas
Para as próximas semanas, o mercado permanecerá num equilíbrio delicado entre três forças: a menor demanda da China (que deve permanecer ausente parcialmente até setembro-outubro), a menor oferta doméstica gerenciada pelos frigoríficos via férias coletivas, e o comportamento do consumo interno, que tem se mostrado relativamente firme segundo os analistas. Consequentemente, esse equilíbrio sugere que a arroba deve permanecer pressionada, mas sem quedas abruptas adicionais — um cenário de ‘mercado em transição’, como classificou o zootecnista Felipe Fabbri, da Scot Consultoria.
Nesse sentido, o gatilho mais esperado para inversão de tendência segue sendo setembro-outubro, quando frigoríficos devem começar a formar posições para a cota chinesa de 2027 — o que pode criar uma janela de recuperação antecipada nos preços da arroba para quem souber se posicionar com antecedência.
O que muda na prática para o produtor
- Pecuaristas: planejar a venda de animais para setembro em diante, quando a retomada das compras para a cota chinesa de 2027 deve sustentar recuperação
- Monitorar os anúncios de novos frigoríficos que adotem ou encerrem férias coletivas como indicador de mudança na tendência de preços
- Avaliar o custo de manutenção do gado em pastagem diante do El Niño que começa a se intensificar no semiárido
- Acompanhar o consumo doméstico de carne bovina como variável que pode acelerar ou frear a recuperação de preços
- Produtores em confinamento: recalcular a rentabilidade do ciclo com a arroba a R$ 332-334/@ antes de decidir sobre novos lotes
Próximos passos
O mercado aguarda sinais da China sobre a retomada das compras. O Portal AgroMais acompanha as cotações do boi gordo semanalmente.
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