O Porto do Pecém, no Ceará, fechou 2025 com o maior volume de movimentação de cargas da sua história. Foram quase 21 milhões de toneladas transportadas — crescimento de 7% em relação a 2024 —, impulsionadas pelo avanço das operações de contêineres e pelo salto de 19% nas rotas internacionais, puxadas por exportações e importações crescentes. Mas os números de 2025 são apenas o começo. O Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP) está no centro de um plano de expansão sem precedentes: mais de R$ 185 bilhões em investimentos previstos para o período de 2026 a 2030, abrangendo logística, energia, combustíveis, tecnologia e infraestrutura ferroviária. Se o plano se concretizar, o Pecém consolidará sua posição como o principal hub estratégico do Nordeste — e um dos mais relevantes do Brasil. Transnordestina: o agro chega ao Porto do Pecém de trem Um dos desenvolvimentos mais significativos para o agronegócio cearense e nordestino é o avanço da Transnordestina dentro do complexo. A TLSA (Transnordestina Logística S.A.), subsidiária da CSN, está em fase de implantação dos trilhos no entorno do porto, com início previsto para o primeiro semestre de 2026. Atualmente, 100% das obras da ferrovia estão concentradas no Ceará. No trecho já concluído, o transporte ferroviário de cargas agrícolas começou em dezembro de 2025. Os primeiros produtos a circular foram milho, sorgo, calcário agrícola e gipsita — insumos e commodities que deixaram as rodovias para ganhar a via férrea, com redução de custo e menor impacto logístico. Quando a Transnordestina chegar ao Porto do Pecém em plena capacidade, o produtor do interior do Ceará, do Piauí e do Pernambuco terá acesso a um corredor ferroviário completo: do campo ao porto, com frete competitivo e menor tempo de trânsito. Para a fruticultura, o camarão e os grãos cearenses, isso significa acesso mais barato e mais rápido ao mercado europeu — aberto agora pelo Mercosul-UE. Terminal de combustíveis: R$ 610 milhões para resolver um gargalo de 20 anos no Porto do Pecém Depois de duas décadas de espera, o terminal de tancagem de combustíveis do Pecém deve finalmente entrar em operação até abril de 2027. O investimento é de R$ 610 milhões, com capacidade instalada de 170 mil metros cúbicos. O terminal vai operar com combustíveis claros — diesel e gasolina — e também com uma área destinada à exportação de escuros de petróleo in natura. A estrutura terá conexão portuária e rodoviária, com perspectiva futura de integração com a Transnordestina — o que transformará o Pecém num nó multimodal completo para distribuição de combustíveis no Nordeste. Para o agronegócio, isso tem impacto direto no custo do diesel — insumo crítico para o transporte de grãos, animais e produtos perecíveis no semiárido. A distribuição mais eficiente de combustíveis a partir do Pecém pode reduzir o custo logístico nas regiões mais distantes dos centros de abastecimento. Energia: gás, GLP e geração de 1,5 GW O CIPP se consolida também como polo energético regional. O Projeto Jandaia, parceria entre a Eneva e a Diamante, vai construir uma usina termoelétrica a gás natural com capacidade de geração de 1,5 GW — um dos maiores projetos de geração termelétrica do Nordeste. O investimento total é estimado em R$ 6,5 bilhões para a térmica, mais R$ 450 milhões para a construção de um terminal de GNL (gás natural liquefeito) no complexo. O projeto venceu o leilão federal de reserva de capacidade e vai garantir 10 anos de fornecimento de energia ao sistema elétrico nacional. As térmicas P101 e P102, que operam com carvão importado, também foram recontratadas por mais uma década, mantendo a base instalada de geração no complexo. Para o agro cearense — especialmente a fruticultura irrigada e a carcinicultura, que são grandes consumidores de energia —, a expansão da oferta energética no CIPP contribui para a estabilidade e, no médio prazo, para a redução do custo da energia na região. GLP, dados e hidrogênio verde: o porto do futuro O portfólio de novos projetos do CIPP vai além da infraestrutura tradicional. A fusão entre a Supergasbras e a Ultragás vai resultar num terminal de GLP (gás de cozinha) — um mercado relevante para a distribuição em regiões do interior nordestino que ainda dependem do gás encanado. Na área de tecnologia, o CIPP entra na disputa global por data centers. O projeto da Alminia, que deve usar energia eólica gerada no Ceará — o estado mais ventoso do país —, posiciona o complexo como polo de infraestrutura digital de baixo carbono. A inteligência artificial chega ao porto não como slogan, mas como infraestrutura. E no horizonte de mais longo prazo, o hidrogênio verde. O Ceará já é referência nacional no debate sobre o H2V, com projetos em desenvolvimento em parceria com empresas europeias. O Porto de Roterdã — sócio estratégico do Pecém —, maior porto da Europa, é também o principal hub de importação de hidrogênio verde do continente. A parceria é, ao mesmo tempo, comercial e estratégica. Porto de Roterdã: o sócio que abre portas para a Europa A parceria com o Porto de Roterdã é um dos ativos menos comentados e mais estratégicos do CIPP. Roterdã é o maior porto da Europa e um dos principais do mundo — movimenta cerca de 440 milhões de toneladas por ano e é o principal ponto de entrada de produtos do mundo para o mercado europeu. Com o Mercosul-UE em vigor desde 1º de maio de 2026, essa parceria ganha novo significado. Produtos cearenses que passam pelo Pecém têm, via Roterdã, acesso a toda a rede de distribuição europeia — reduzindo o número de intermediários e ampliando a margem dos exportadores. A distância geográfica é o outro trunfo: os portos nordestinos chegam à Europa entre 10 e 14 dias antes que Santos ou Paranaguá. Em produtos perecíveis — como melão, camarão e frutas frescas —, esse tempo é a diferença entre um produto premium e um descartado na alfândega. O que muda na prática para o produtor Próximos passos O terminal de combustíveis tem previsão de operação