Muskismo | Goste ou não de Elon Musk, é difícil ignorá-lo. O homem mais rico do mundo está prestes a abrir o capital da startup mais valiosa do planeta. E um novo livro argumenta que ele oferece ao século 21 o mesmo que Henry Ford deu ao século 20: um modelo de capitalismo que vai muito além de carros elétricos e foguetes.
“Muskismo”, escrito pelos pesquisadores Quinn Slobodian e Ben Tarnoff, examina de onde veio Musk e os episódios que moldaram sua visão de mundo — e acaba se tornando uma leitura obrigatória para quem quer entender como tecnologia, Estado e mercado se articulam na era atual. Para o agronegócio, que vive sua própria revolução tecnológica, as lições são mais pertinentes do que parecem à primeira vista.
Muskismo: O Estado como trampolim — não como obstáculo
A narrativa dominante no Vale do Silício sempre foi a da ruptura: a tecnologia como força libertadora do controle estatal. Musk navegou nessa retórica, mas construiu seus negócios de outra forma.
A primeira empresa dele, a Zip2, combinou listas de negócios com mapas digitais baseados em GPS — um sistema desenvolvido pelo governo americano. Não lucrou nada, mas foi vendida por US$ 307 milhões. A SpaceX decolou com contratos públicos e passou a executar funções que antes eram monopólio estatal, como transportar astronautas à Estação Espacial Internacional. A Tesla cresceu com empréstimos e subsídios governamentais enquanto se apresentava como empresa antiestablishment.
Os autores chamam isso de “simbiose estatal”: em vez de fugir do governo, Musk construiu um império sobre a infraestrutura que ele proveu — e depois ofereceu serviços essenciais de volta.
O Starlink, serviço de internet via satélite da SpaceX, é hoje peça vital da guerra na Ucrânia. Isso deu a Musk uma influência política que nenhum empresário privado havia acumulado antes.
Muskismo: O que isso tem a ver com o agronegócio brasileiro?
Muito mais do que parece.
O agronegócio nacional construiu sua trajetória de liderança global em simbiose com o Estado — e não apesar dele. A Embrapa desenvolveu as variedades de soja adaptadas ao Cerrado. O BNDES financiou a expansão das agroindústrias. O Pronaf e o Plano Safra subsidiam o crédito da agricultura familiar e empresarial há décadas. O Proálcool criou o mercado de etanol que hoje sustenta o E30 e avança para o E32.
O Brasil não se tornou o maior exportador de soja, frango, carne e açúcar do mundo porque o Estado saiu do caminho. Tornou-se porque pesquisa pública, crédito subsidiado e política comercial atuaram em conjunto com o empreendedorismo privado. Essa é, em essência, a mesma lógica do “Muskismo” descrita no livro.
A pergunta relevante para o agronegócio brasileiro não é se o Estado deve ou não estar presente — ele já está, e é parte central da equação. A pergunta é como usar essa simbiose de forma mais inteligente, da maneira que Musk fez com foguetes e carros elétricos.
Muskismo: A “alquimia da atenção” e o agro digital
Outro conceito do livro que ressoa no agronegócio é o que os autores chamam de “alquimia da atenção” — a capacidade de Musk de transformar engajamento nas redes sociais em valor de negócio. A Tesla, argumentam os autores, foi a primeira meme stock antes do GameStop.
O agronegócio brasileiro vive seu próprio momento de “alquimia da atenção”. O crescimento das fintechs agro, das plataformas de comercialização digital, das startups de monitoramento por satélite e dos sistemas de gestão rural baseados em IA segue uma lógica parecida: tecnologia que converte dados e engajamento em valor econômico real para o produtor.
O AiTec, espaço de inovação da AgroBrasília 2026, reuniu dezenas de startups com exatamente esse perfil. O Porto Digital do Recife tem empresas agtech crescendo nessa direção. E o Ceará, com 87 das 100 melhores escolas públicas do país e universidades como UFC, Uece e IFCE desenvolvendo pesquisa aplicada ao semiárido, tem os ingredientes para produzir sua própria versão regional desse movimento.
Integração vertical e resiliência: lições para a cadeia produtiva
A Tesla adotou um modelo verticalmente integrado: fabrica suas próprias baterias, tem sua própria rede de recarga e instalou uma fábrica na China para se proteger de choques comerciais. Isso lhe deu resiliência numa era de fragmentação das cadeias de suprimento globais.
O agronegócio brasileiro enfrenta o mesmo desafio. A dependência de fertilizantes importados — 85% a 90% do consumo nacional — ficou exposta de forma brutal durante a guerra na Ucrânia e os conflitos no Estreito de Ormuz. A retomada das Fafens (Fafen-BA e Fafen-SE) pela Petrobras e a construção da UFN-III em Três Lagoas são a resposta brasileira ao problema de integração vertical que Musk resolveu fabricando as próprias baterias da Tesla.
A cajucultura, a carcinicultura e a fruticultura cearense também têm esse desafio: quanto mais da cadeia de valor o produtor e as cooperativas conseguirem internalizar — do insumo ao produto exportado —, mais resiliência terão frente às oscilações do mercado global.
O modelo Musk funciona — até quando o Estado vira o jogo
O livro termina com um capítulo revelador. Após anos usando o Estado como trampolim, Musk foi colocado pelo governo Trump para dirigir o DOGE — o Departamento de Eficiência Governamental — com a missão de enxugar a máquina pública. Saiu meses depois tendo alcançado pouco, enquanto acumulou críticas e desgaste político. Os autores argumentam que foi uma armadilha: o Estado usou Musk da mesma forma que ele havia usado o Estado.
A lição para o agronegócio é mais sutil. A simbiose com o Estado — crédito subsidiado, pesquisa pública, proteção tarifária, incentivos fiscais — é uma vantagem competitiva real. Mas criar dependência excessiva de qualquer dessas variáveis é risco de gestão. As empresas e cooperativas do agro que mais cresceram nos últimos anos são as que souberam usar os recursos públicos como alavanca — não como muleta.
Fontes: The Economist — “Muskism”, resenha do livro de Quinn Slobodian e Ben Tarnoff | https://www.economist.com/ “Muskism” — Quinn Slobodian e Ben Tarnoff (livro, 2026) Embrapa — História e contribuições ao agronegócio | https://www.embrapa.br/ Petrobras / Agência Brasil — Retomada das Fafens | https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2026-05/petrobras-retoma-fabricas-de-fertilizantes-para-atender-35-da-demanda







