ILPF no semiárido — como integrar lavoura, pecuária e floresta no CE

A Fazenda Rio Manso, em Campo Verde, no Mato Grosso, virou referência nacional ao adotar o sistema ILPF — Integração Lavoura-Pecuária-Floresta — numa propriedade que combina, na mesma área, lavoura de grãos, criação de animais e plantio de árvores num ciclo biológico de benefícios mútuos. O sistema ILPF não é apenas uma boa prática ambiental — é uma estratégia produtiva comprovada: ao integrar as três atividades na mesma área, o produtor usa o capim como pastagem para o rebanho entre safras de grãos, usa o esterco do rebanho como adubo para a lavoura, e usa as árvores para sombreamento do pasto (aumentando a produtividade do rebanho em climas quentes) e para armazenar carbono (abrindo acesso a créditos de carbono). A propriedade em Campo Verde demonstrou que o ILPF eleva a produtividade por hectare enquanto reduz os impactos ambientais — e em 2026, com o Plano ABC+ do governo federal promovendo práticas sustentáveis na agropecuária, o ILPF ganhou ainda mais relevância como política pública de crédito subsidiado para quem adota o sistema. Consequentemente, a lição que a Fazenda Rio Manso ensina ao produtor nordestino não é sobre fazer o que eles fazem no Mato Grosso — é sobre o princípio que está por trás do ILPF: usar a integração das atividades para multiplicar o resultado de cada uma delas na mesma área, reduzindo custo e diversificando renda.

Nesse sentido, o semiárido nordestino tem condições específicas que tornam uma versão adaptada do ILPF especialmente relevante para o produtor cearense. O sistema de integração lavoura-pecuária-floresta não precisa ser exatamente igual ao modelo do Mato Grosso para gerar os mesmos benefícios — ele precisa usar as espécies e as culturas que fazem sentido para o clima, o solo e a tradição produtiva da região.

O ILPF adaptado ao semiárido cearense — o que já funciona e o que é possível

O semiárido nordestino tem elementos nativos que permitem uma versão do ILPF especialmente adaptada às condições da Caatinga. O primeiro elemento é a palma forrageira: plantada nas entrelinhas da lavoura de milho ou feijão, a palma fornece forragem para o rebanho nos períodos de seca, funciona como quebra-vento para proteger as lavouras e conserva a umidade do solo. O segundo é a gliricídia — leguminosa nativa que cresce bem no semiárido, fixa nitrogênio no solo (reduzindo o custo de fertilizantes), pode ser usada como forrageira de alta proteína para o rebanho e produz sombra que mantém o solo úmido por mais tempo. O terceiro é o sabiá — espécie arbórea nativa da Caatinga que combina uso silvopastoril (sombra para o rebanho, reduzindo o estresse térmico que o El Niño amplifica), madeira para uso na propriedade e proteção da biodiversidade. Consequentemente, a combinação de milho ou feijão na linha, palma forrageira e gliricídia nas entrelinhas, e sabiá como componente arbóreo é uma versão de ILPF adaptada ao semiárido cearense que a Embrapa Semiárido (Petrolina/PE) e a Embrapa Caprinos e Ovinos (Sobral/CE) têm documentado como viável e replicável nas condições do semiárido nordestino.

Nesse sentido, o componente animal do ILPF nordestino tem uma vantagem específica que o modelo do Cerrado não tem: o caprino e o ovino — que são mais eficientes na conversão de forragem de baixa qualidade do que os bovinos — são os animais mais indicados para o pastejo integrado com a palma e a gliricídia no semiárido. O produtor nordestino que tem caprinos e ovinos pastejando sob sabiás, consumindo palma nas secas e beneficiando-se do nitrogênio fixado pela gliricídia está fazendo ILPF adaptado ao semiárido — mesmo que nunca tenha ouvido falar no nome do sistema.

O Plano ABC+ e o crédito para quem adota o ILPF no Nordeste

O Plano ABC+ (Agricultura de Baixo Carbono, versão ampliada) é a política pública federal que oferece crédito subsidiado para produtores que adotam sistemas de produção sustentáveis — incluindo o ILPF, a integração lavoura-pecuária sem floresta (ILP), a recuperação de pastagens degradadas e o plantio direto. As taxas do Plano ABC+ são competitivas — entre 8% e 10% ao ano para a maioria das modalidades —, com prazos de pagamento que podem chegar a 12 anos para investimentos em ILPF. Consequentemente, o produtor nordestino que quer implantar o ILPF adaptado ao semiárido — com palma, gliricídia, sabiá e caprinos/ovinos — pode financiar o investimento inicial via Plano ABC+ junto ao BNB, com taxas subsidiadas que tornam o projeto economicamente viável mesmo considerando o custo inicial de implantação das espécies arbóreas e forrageiras.

Nesse sentido, a Embrapa Caprinos e Ovinos (Sobral/CE) é a instituição de referência para o produtor nordestino que quer conhecer o ILPF adaptado ao semiárido: a Embrapa tem experimentos de integração silvopastoril com espécies nativas da Caatinga que podem ser visitados e adaptados para a realidade de cada propriedade. O Senar Ceará ((85) 3306-6600) também tem cursos de produção integrada e silvopastoril que cobrem as espécies e os manejos recomendados para o semiárido nordestino. E a Ematerce (0800 275 4111) orienta sobre o acesso ao Plano ABC+ junto ao BNB para financiar a implantação do sistema na propriedade.

O que muda na prática para o produtor

● Visitar a Embrapa Caprinos e Ovinos em Sobral/CE para conhecer os experimentos de integração silvopastoril com espécies nativas da Caatinga (gliricídia, sabiá, palma) adaptados ao semiárido

● Verificar com o BNB as linhas do Plano ABC+ para ILPF e silvopastoril — taxas entre 8% e 10% a.a. com prazo de até 12 anos para implantação de sistemas integrados

● Produtores que já têm palma forrageira: avaliar a inclusão de gliricídia nas entrelinhas como fixadora de nitrogênio — reduz o custo de fertilizante e fornece forragem de alta proteína para caprinos e ovinos

● Associar o sistema ILPF adaptado ao semiárido com o diferimento de pastagem recomendado para agosto — as espécies arbóreas fornecem sombra que reduz a evapotranspiração e mantém a forragem por mais tempo

● Verificar com a Ematerce (0800 275 4111) se o CAR da propriedade está regular — condição necessária para acessar o crédito do Plano ABC+ para ILPF e silvopastoril

Próximos passos

O Portal AgroMais acompanha os sistemas de produção integrada e sustentável adaptados ao semiárido nordestino.

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Jakeline Diógenes
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