Endividamento no agronegócio atinge 7% dos produtores, maior nível em 20 anos

O endividamento no setor agropecuário brasileiro atingiu 7% dos produtores rurais, o maior percentual em duas décadas, segundo Tirso Meirelles, presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp). Consequentemente, a combinação entre juros elevados, alta de impostos, diesel e fertilizantes mais caros e queda nas cotações das commodities tem reduzido a renda do produtor e dificultado o retorno do capital investido, que leva em média sete anos no campo.

Nesse contexto, a articulação política em Brasília busca viabilizar o uso de fundos do petróleo para repactuar essas dívidas — exatamente o mecanismo aprovado pelo Senado nesta semana através do PL 5.122/2023. Para o setor, portanto, a aprovação da renegociação de dívidas e o avanço do Plano Safra 2026/27 são as duas frentes mais urgentes para conter o avanço do endividamento ao longo do segundo semestre.

Os fatores que explicam o recorde de endividamento

Segundo Meirelles, o alto patamar de juros no Brasil atrai capital externo de curto prazo, o que ajuda a explicar a alta da bolsa e a queda do dólar observadas em momentos recentes, mas pode gerar instabilidade futura para o produtor que financia sua atividade com taxas de juros elevadas. Consequentemente, ele ressaltou que o retorno no campo leva, em média, sete anos, o que torna o endividamento mais sensível ao custo financeiro e à carga tributária do que em outros setores da economia.

Ademais, a combinação de fatores é cumulativa: diesel mais caro eleva o custo logístico e operacional, fertilizantes mais caros pressionam o custeio da lavoura, e a queda das commodities reduz a receita esperada pelo produtor no momento da venda — um cenário que, somado, comprime significativamente as margens da atividade rural em todo o país.

A resposta da Faesp: formação, tecnologia e conectividade

Na área de formação, Meirelles destacou investimentos em educação e tecnologia no campo, com a criação de centros de excelência em áreas como biocombustíveis, inteligência artificial, bioinsumos, irrigação e agricultura familiar, em cidades como Ribeirão Preto, São Roque, Avaré e no Vale do Ribeira. Segundo ele, a estratégia busca ampliar produtividade, difundir conhecimento e estimular a permanência de jovens no campo.

‘É um ponto central. Trabalhamos a formação de lideranças com produtores e suas famílias, além de incentivar jovens a retornarem às propriedades com foco em inovação, tecnologia e empreendedorismo’, destacou Meirelles. Nesse sentido, a aposta da Faesp é que o aumento de produtividade e eficiência, combinado com soluções financeiras como a renegociação de dívidas, possa reverter a trajetória de endividamento observada nos últimos anos.

Por que o momento exige atenção redobrada do produtor

O cenário de endividamento recorde se soma a outros desafios estruturais enfrentados pelo agronegócio brasileiro em 2026 — desde o El Niño confirmado, que ameaça reduzir a produtividade em diversas regiões, até a volatilidade geopolítica que afetou os custos de fertilizantes e energia nos últimos meses. Consequentemente, para o produtor que já enfrenta dificuldades financeiras, a combinação desses fatores exige planejamento ainda mais cuidadoso para os próximos ciclos produtivos.

Portanto, a aprovação do socorro ao endividamento rural pelo Senado, somada às definições do Plano Safra 2026/27, previsto para 1º de julho, são os dois eventos mais aguardados pelo setor nas próximas semanas para tentar estabilizar a situação financeira de milhares de produtores em todo o país.

O que muda na prática para o produtor

  • Produtores endividados: avaliar se a propriedade se qualifica para a linha especial de renegociação aprovada pelo Senado, caso o texto seja sancionado
  • Buscar capacitação em tecnologia e gestão financeira — centros de excelência da Faesp são referência em biocombustíveis, IA, bioinsumos e irrigação
  • Revisar o planejamento financeiro da safra 2026/27 considerando juros ainda elevados e custos de produção pressionados
  • Para jovens produtores: explorar programas de formação e sucessão familiar como estratégia de permanência no campo
  • Acompanhar o anúncio do Plano Safra 2026/27, em 1º de julho, para verificar condições de crédito que possam aliviar a pressão financeira

Próximos passos

O Plano Safra 2026/27 será anunciado em 1º de julho. O PL 5.122/2023, sobre renegociação de dívidas rurais, segue em tramitação na Câmara dos Deputados. O Portal AgroMais acompanha os indicadores de endividamento do setor.

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Jakeline Diógenes
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