O jornal britânico Financial Times publicou hoje uma reportagem que muda o enquadramento do agronegócio brasileiro no mapa global: com as tarifas de Trump penalizando as exportações americanas nos mercados internacionais e a China redirecionando compras para o Brasil, o país está prestes a superar os Estados Unidos como maior exportador agrícola do mundo. Segundo dados do USDA e do Ministério da Agricultura brasileiro citados pelo FT, os EUA exportaram US$ 171 bilhões em produtos agrícolas em 2025 — superando o Brasil por uma margem de apenas US$ 2 bilhões. Consequentemente, essa margem era de US$ 56 bilhões em 2021: a aproximação de US$ 54 bilhões em apenas quatro anos é vertiginosa e reflete tanto o crescimento das exportações brasileiras quanto o efeito das tarifas americanas sobre a competitividade dos EUA nos mercados globais.
Nesse sentido, o superávit comercial brasileiro cresceu 149% em julho parcial, segundo o Agrolink desta terça-feira — com soja, carne bovina, café e algodão liderando os volumes. A soja do MATOPIBA negocia 1 milhão de toneladas em um único dia; o algodão brasileiro bate recordes históricos de exportação em junho (217 mil toneladas, +63,4% vs junho de 2025); e a carne bovina gera receita 25% acima de julho de 2025. São três frentes simultâneas de aceleração que fazem do Brasil de 2026 um exportador agrícola em patamar inédito.
O papel do Nordeste na virada que o Financial Times descreve
A reportagem do FT foca nos grandes volumes de soja, carne e café do Centro-Sul — mas a virada que ela descreve tem contribuições nordestinas que merecem reconhecimento. O camarão cearense — do qual o Ceará é líder nacional com cerca de 110 mil toneladas por ano, isento da tarifa americana de 25% — é um dos produtos que posiciona o Brasil no mercado global de proteínas sem o custo adicional que pesa sobre os concorrentes. O mel do Cariri — com Santana do Cariri como maior produtor municipal do Brasil em 2023 e crescimento de 241% em sete anos, também isento da tarifa americana — é outro produto nordestino que cresce no mapa exportador brasileiro. Consequentemente, a carne bovina nordestina integra a cadeia pecuária que exportou com receita 25% acima de julho de 2025, com o Ceará conectado a essa cadeia pelos julgamentos e leilões que a Expocrato 2026 consolidou na semana passada.
Nesse sentido, o algodão do Cariri — desenvolvido pela Embrapa de Barbalha com custo de um terço do praticado no Cerrado e mais de 1.800 hectares cadastrados em municípios do sul do Ceará — está se tornando mais uma peça dessa virada exportadora. Com exportações de algodão brasileiras batendo recorde histórico em junho, a cadeia que começa no Campo Experimental de Barbalha e chega ao porto de Pecém é parte do ecossistema que o FT está descrevendo — mesmo que o jornal britânico não saiba que parte dessa história passa pelo Crato.
O que o produtor nordestino deve fazer com essa informação
A notícia de que o Brasil está prestes a se tornar o maior exportador agrícola do mundo não é apenas uma curiosidade geopolítica: é uma informação de mercado com implicações práticas para o produtor nordestino que exporta ou que quer exportar. Consequentemente, quando o Brasil consolida sua posição de líder exportador global, dois efeitos são esperados: primeiro, maior demanda por todos os produtos da pauta exportadora brasileira, o que sustenta os preços domésticos por mais tempo; segundo, mais atenção internacional para produtos brasileiros com identidade geográfica — o mel de aroeira do Cariri, o camarão do Ceará e o queijo coalho de Jaguaribe se tornam mais visíveis num Brasil que o mundo está enxergando como referência global de agronegócio.
Nesse sentido, para o produtor nordestino que ainda não exporta diretamente, o momento é propício para avançar nas certificações que abrem portas internacionais: o FDA para o camarão e o mel, os padrões europeus de rastreabilidade para o queijo e as frutas tropicais, e a certificação de orgânicos para o mel de abelhas nativas da Caatinga. O Programa Exporta Mais Brasil do Sebrae/CE existe exatamente para apoiar esse processo — e nunca houve um momento mais favorável para iniciar a jornada exportadora do que quando o Brasil está na iminência de se tornar o maior exportador agrícola do mundo.
O que muda na prática para o produtor
- Exportadores nordestinos de camarão e mel: o momento de avançar nas certificações internacionais (FDA, UE) nunca foi tão favorável — contatar Sebrae/CE e Programa Exporta Mais Brasil
- Produtores de algodão do Cariri: acompanhar os recordes de exportação do algodão brasileiro como indicador de valorização da produção regional
- Cooperativas: usar o contexto de liderança exportadora do Brasil para negociar melhores condições com importadores que precisam da proteína e do mel brasileiros
- Produtores de queijo coalho de Jaguaribe: avançar no processo de IG junto ao INPI — a identidade territorial é o ativo mais valioso num mercado que reconhece a origem
- Acompanhar o Portal AgroMais para a cobertura dos dados mensais de exportação do agronegócio e seus impactos para o Nordeste
Próximos passos
O Portal AgroMais acompanha a ascensão do Brasil como potência exportadora agrícola e os impactos para o agronegócio nordestino.
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