A procedência de um produto é informação cada vez mais valiosa e exigida pelo consumidor. Conhecer a história daquilo que está consumindo passou a fazer parte de uma experiência de compra — tanto no mercado doméstico premium quanto no mercado internacional, onde a rastreabilidade de origem é crescentemente um pré-requisito de acesso. Esse movimento global tem um instrumento jurídico específico no Brasil: a Indicação Geográfica (IG), selo oficial concedido pelo INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial) que reconhece produtos cuja reputação e características únicas estão diretamente ligadas ao território de origem. O Brasil mais que dobrou seus registros de IG nos últimos seis anos: de 73 em 2020 para 151 em 2026. E o Ceará está nessa trajetória: com apoio do Sebrae/CE, o estado conquistou sete Indicações Geográficas e tem mais oito em processo junto ao INPI. Consequentemente, para o produtor nordestino cujo produto está nessa lista, a IG não é uma burocracia — é o passaporte para mercados que pagam mais por origem certificada.
Nesse sentido, o evento Connection Terroirs do Brasil, realizado em junho em Gramado (RS), reuniu produtores, gestores e especialistas de todo o país para debater a importância da Indicação Geográfica como instrumento de valorização territorial. A mensagem central é simples e poderosa: o mesmo produto, com IG, vale mais. E o Ceará tem alguns dos produtos com maior potencial de valorização via IG de todo o Nordeste.
As sete IGs cearenses e o que cada uma representa para o produtor
O Ceará conta com sete Indicações Geográficas reconhecidas pelo INPI. O mel de aroeira dos Inhamuns — certificado como IG em março de 2025 — é a conquista mais recente e a de maior relevância imediata: produzido durante a estiagem do semiárido, quando a escassez de flores limita a alimentação das abelhas e concentra o néctar da aroeira numa mel monofloral de sabor único, o mel dos Inhamuns tem agora proteção jurídica que impede o uso indevido do nome e abre acesso a mercados de alto padrão que valorizam origem certificada. Junto ao mel dos Inhamuns, o Ceará tem as IGs do algodão dos Inhamuns, do artesanato de filé do Jaguaribe, da cachaça de Viçosa do Ceará, das redes de Jaguaruana e do camarão Costa Negra (Acaraú, Cruz e Itarema). Consequentemente, cada uma dessas IGs representa um produtor ou artesão do Ceará que agora pode usar o selo de origem como argumento de venda em qualquer mercado do Brasil e do mundo — com proteção jurídica que transforma o saber-fazer local em patrimônio reconhecido pelo Estado.
Nesse sentido, as oito IGs em processo junto ao INPI com apoio do Sebrae/CE são igualmente relevantes para o campo nordestino: queijo coalho do Jaguaribe (Queijaribe), café do Maciço de Baturité, renda de bilro de Aquiraz, fibra do croá de Pindoguaba (Tianguá), artesanato em cerâmica de Ipu, facas artesanais de Potengi, cajuína e mel de abelhas nativas. O processo de IG no INPI leva em média 30 meses — 18 de estruturação e mais 12 de análise no órgão federal. O produtor que inicia hoje chega à certificação em 2028 com o produto protegido e valorizado.
Queijo coalho de Jaguaribe e mel dos Inhamuns — os dois com maior potencial de mercado
Entre os produtos cearenses em processo de IG ou já certificados, dois se destacam pelo volume de produção, pela relevância econômica regional e pelo potencial de valorização imediata. O primeiro é o queijo coalho de Jaguaribe — produzido por dezenas de famílias nos municípios do Vale do Jaguaribe, com 60 mil litros de leite processados por dia, 90% transformados localmente em queijo coalho artesanal. A IG do queijo coalho, quando concedida, transforma um saber-fazer de mais de 300 anos em proteção jurídica: nenhum produtor de fora da região delimitada poderá usar o nome ‘Queijo Coalho de Jaguaribe’ sem cometer violação de propriedade intelectual. Consequentemente, a IG abre acesso a redes de supermercados premium, exportadores de queijos artesanais e mercados gastronômicos que pagam o dobro ou o triplo do preço do queijo coalho convencional para um produto com origem certificada.
Nesse sentido, o mel dos Inhamuns — já certificado — é o exemplo mais próximo de como a IG transforma produto em ativo. Com o mel isento da tarifa americana de 25% e com a IG do INPI garantindo a origem e as características únicas do mel de aroeira monoflortal do semiárido, o apicultor dos Inhamuns tem hoje dois argumentos simultâneos para o mercado americano e europeu: isenção tarifária e origem certificada. Essa combinação — raramente disponível num único produto — é o que o Connection Terroirs do Brasil identificou como o trunfo dos produtos de IG brasileiros nos mercados internacionais mais exigentes.
Como o produtor nordestino avança na IG da sua região — os passos práticos
O processo de obtenção de uma Indicação Geográfica no Brasil começa pela organização coletiva: a IG é sempre de uma associação ou cooperativa que representa os produtores da região delimitada — não de um produtor individual. O caminho começa pela formalização de uma associação representativa como a Queijaribe para o queijo coalho de Jaguaribe, depois pelo levantamento documental que comprova a vinculação do produto ao território (histórico de produção, características únicas ligadas ao clima, solo ou saber-fazer local) e finalmente pelo protocolo do pedido junto ao INPI. Consequentemente, o Sebrae/CE é o principal apoiador desse processo no Ceará — com consultores especializados em propriedade intelectual e IG que acompanham os grupos produtores em todas as etapas, da organização coletiva ao protocolo no INPI.
Nesse sentido, para o produtor de um município que não está nos processos em curso mas que tem um produto com potencial de IG — mel nativo da Caatinga, cachaça artesanal de uma região específica, cerâmica ou couro trabalhado com técnica local —, a porta de entrada é o Sebrae/CE: o contato pode ser feito pelo site sebrae.com.br/ce ou pelo telefone (85) 3255-2222. O investimento de tempo no processo de IG é o investimento que vai multiplicar o valor do produto por anos — sem custos de insumos, sem fertilizantes e sem dependência do câmbio.
O que muda na prática para o produtor
● Produtores de mel dos Inhamuns: usar o selo de IG como argumento de venda no mercado americano (mel isento da tarifa) e europeu — a IG e a isenção tarifária juntas são combinação rara
● Produtores de queijo coalho de Jaguaribe: contatar a Queijaribe para se associar e acompanhar o processo de IG junto ao INPI — proteção jurídica que vale mais do que qualquer certificação paga
● Cafeicultores de Baturité: o processo de IG do café do Maciço está em andamento com apoio do Sebrae/CE — contatar o Sebrae para entrar no grupo e beneficiar-se da certificação quando concedida
● Produtores com produto regional sem IG em processo: contatar o Sebrae/CE (85) 3255-2222 para verificar se o produto tem potencial e como iniciar o processo de forma coletiva
● Associações de produtores: a IG é sempre coletiva — organizar a associação representativa é o primeiro passo antes de qualquer protocolo junto ao INPI
Próximos passos
O Portal AgroMais acompanha as Indicações Geográficas cearenses e nordestinas como instrumentos de valorização territorial dos produtos do campo.
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