O petróleo bruto atingiu US$ 98 por barril nesta quinta-feira (23 de julho), acumulando alta de 41% no ano, após os Estados Unidos completarem seu décimo segundo dia consecutivo de ataques a alvos no Irã. A escalada geopolítica aprofundou-se com uma novidade que amplifica o impacto sobre as cadeias de energia globais: desde 20 de julho, os Houthis do Iêmen — aliados do Irã — decretaram bloqueio marítimo à Arábia Saudita no Estreito de Bab el-Mandeb, bloqueando a principal rota alternativa ao Ormuz para o escoamento do petróleo saudita. Com o Secretário de Estado Marco Rubio declarando que o Irã não está sendo sério nas negociações, o mundo enfrenta simultaneamente os dois principais corredores marítimos de energia do Golfo comprometidos — uma situação sem precedentes que o Goldman Sachs projeta podendo levar o Brent a ultrapassar US$ 120 no quarto trimestre de 2026. Consequentemente, o patamar de US$ 98 acumulado em doze dias de conflito representa uma alta superior ao nível observado no auge da crise energética de 2022 — e os mercados de fertilizantes, que dependem das rotas do Golfo, já começam a incorporar esse risco nos fretes e nas cotações.
Nesse sentido, a alta acumulada de 41% no preço do barril desde o início do ano — quando o Brent estava em torno de US$ 69-70 — reflete a progressão do conflito em fases: o início dos ataques americanos ao Irã em fevereiro, as tentativas de cessar-fogo em março e abril, o memorando de entendimento de junho (que foi rompido duas semanas antes), e a retomada das hostilidades com intensidade crescente desde meados de julho. Cada fase de escalada adicional adiciona um novo patamar ao preço do petróleo — e a fase atual, com os dois corredores do Golfo simultâneos comprometidos, representa o cenário de risco mais severo para o custo de energia e fertilizantes que o Brasil e o agronegócio nordestino já enfrentaram.
Como o barril a US$ 98 chega ao custo de produção da lavoura nordestina
A conexão entre o preço do barril e o custo de produção da lavoura nordestina tem três caminhos distintos e simultâneos. O primeiro é direto: o diesel usado em máquinas agrícolas, motobombas de irrigação e transportes rurais fica mais caro quando o petróleo sobe — e o produtor que irriga com energia térmica sente o impacto na conta de combustível imediatamente. O segundo é via fertilizantes: a ureia, o fertilizante nitrogenado mais usado no Brasil, é produzida a partir do gás natural — e boa parte do gás natural exportado para a produção de ureia destinada ao Brasil vem do Golfo Pérsico, cuja saída está comprometida pelos bloqueios simultâneos. Consequentemente, com o Brasil importando 80% da ureia que consome e dependendo de rotas que passam pelo Ormuz e pelo Bab el-Mandeb, cada dia de conflito adicional pressiona fretes, reduz disponibilidade e eleva o custo unitário da tonelada de fertilizante nos portos brasileiros.
Nesse sentido, o terceiro caminho é via câmbio: quando o petróleo sobe e a aversão ao risco global aumenta, o real tende a se depreciar frente ao dólar — e como os fertilizantes são cotados em dólar, qualquer fraqueza do real multiplica o custo em reais que o produtor paga. Com o dólar já em R$ 5,12 nesta quinta-feira e o cenário de aversão ao risco elevado pelo duplo bloqueio, a convergência entre Brent a US$ 98 e câmbio em alta é o pior ambiente possível para quem ainda precisa comprar fertilizantes para a safra 2026/27.
O duplo bloqueio que fecha o Golfo — e o que o produtor nordestino precisa entender
O Estreito de Ormuz — por onde passa 20% do petróleo global — está efetivamente fechado para parte do tráfego desde o início do conflito, com o Irã ameaçando qualquer embarcação que tente transitar. A alternativa natural seria o Estreito de Bab el-Mandeb, que conecta o Golfo de Áden ao Mar Vermelho e representa a rota de saída do petróleo saudita e emiradense que não passa pelo Ormuz. Mas com os Houthis decretando bloqueio marítimo à Arábia Saudita em 20 de julho, essa alternativa também foi comprometida — deixando produtores e exportadores do Golfo sem rotas diretas de saída por mar para os mercados da Europa e da Ásia. Consequentemente, os navios que ainda conseguem carregar petróleo no Golfo precisam navegar ao redor da África pelo Cabo da Boa Esperança — uma rota que adiciona 10 a 14 dias de viagem e custos de frete significativos, que se transmitem diretamente no preço dos produtos transportados.
Nesse sentido, para o produtor nordestino, a conclusão prática é inequívoca: comprar fertilizantes hoje, com o custo ainda não totalmente ajustado ao duplo bloqueio, é mais barato do que comprar em agosto, quando os fretes adicionais e a menor disponibilidade terão se transmitido integralmente nos preços. O Plano Safra 2026/27, com linhas de custeio junto ao BNB a taxas historicamente baixas, é o instrumento de financiamento disponível para fazer essa compra sem comprometer o caixa da propriedade. A janela que existe hoje pode não existir na semana que vem.
O que muda na prática para o produtor
- Comprar fertilizantes para a safra 2026/27 HOJE — Brent a US$ 98 e duplo bloqueio no Golfo são os dois maiores argumentos para agir antes que os fretes se transmitam nos preços
- Contratar linha de custeio do Plano Safra 2026/27 junto ao BNB para financiar a compra de fertilizantes sem comprometer o caixa da propriedade
- Monitorar o Brent e o câmbio diariamente como antecipadores do custo de fertilizantes importados — trajetória de alta persistente sinaliza compra imediata
- Diversificar fornecedores de fertilizantes para reduzir dependência de origens que passam pelo Golfo Pérsico
- Aumentar o uso de FBN (fixação biológica de nitrogênio) na soja e bioinsumos nas demais culturas para reduzir dependência estrutural de ureia importada
Próximos passos
O Portal AgroMais acompanha a guerra EUA-Irã e seus impactos sobre fertilizantes, fretes e custos de produção agrícola no Brasil.
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