O preço do ATR (Açúcar Total Recuperável) da cana-de-açúcar em São Paulo caiu para abaixo de R$ 1, um patamar que já liga sinal de alerta entre os produtores da principal região canavieira do país. Consequentemente, esse movimento de queda chega num momento em que o setor sucroenergético já enfrentava decisões complexas sobre o mix de produção entre etanol e açúcar, especialmente diante da retração do petróleo após o acordo EUA-Irã, que reduziu a paridade do etanol frente à gasolina nas últimas semanas.
Para o produtor de cana-de-açúcar, portanto, a combinação entre ATR mais baixo e margem pressionada exige atenção redobrada ao planejamento financeiro da safra que se inicia neste período no Centro-Sul — especialmente porque o valor do ATR é a métrica que determina diretamente a remuneração do fornecedor de cana à usina.
Por que o ATR é tão importante para a remuneração do produtor
O ATR mede a quantidade de açúcares recuperáveis presentes na cana-de-açúcar entregue pelo produtor à usina, sendo a base de cálculo para a remuneração no sistema Consecana, adotado pela maioria do setor sucroenergético em São Paulo e em outros estados produtores. Consequentemente, quando o preço do ATR cai, o produtor recebe menos por tonelada de cana entregue, mesmo que o volume colhido permaneça estável — uma pressão direta sobre a rentabilidade da atividade.
Nesse sentido, a queda para abaixo de R$ 1 representa um patamar psicológico relevante para o setor, já que historicamente esse nível costuma sinalizar um momento de maior cautela entre produtores e usinas na negociação de contratos e na definição de estratégias para os próximos ciclos.
A conexão com a queda do petróleo e a paridade do etanol
Esse cenário de pressão sobre o ATR se conecta diretamente com outro movimento que vínhamos acompanhando nas últimas semanas: a queda do petróleo após o acordo EUA-Irã reduziu a paridade do etanol frente à gasolina, tornando a produção do biocombustível relativamente menos atrativa para as usinas. Consequentemente, com menos incentivo para priorizar etanol, e com o preço do ATR também em queda, o setor sucroenergético enfrenta um momento de pressão simultânea em duas frentes que normalmente funcionam como alternativas uma à outra.
Ademais, vale lembrar que o debate sobre a aprovação do E32 pelo CNPE, que segue em curso, ganha relevância ainda maior nesse contexto — caso aprovado, o aumento do percentual de mistura de etanol anidro na gasolina poderia ajudar a sustentar a demanda pelo biocombustível mesmo num cenário de petróleo mais barato, oferecendo certo alívio ao setor diante da pressão atual sobre o ATR.
O que esperar para a safra que se inicia no Centro-Sul
Com a safra de cana 2026/27 se iniciando neste período no Centro-Sul, o cenário de ATR mais baixo e paridade do etanol pressionada cria um ambiente de planejamento mais desafiador para usinas e produtores. Consequentemente, a decisão sobre o mix de produção entre etanol e açúcar — historicamente uma das principais ferramentas de gestão de risco do setor sucroenergético — ganha complexidade adicional neste ciclo, já que nenhuma das duas alternativas apresenta, neste momento, um cenário de preços claramente mais vantajoso.
O que muda na prática para o produtor
- Produtores de cana-de-açúcar fornecedores via Consecana: acompanhar de perto a evolução do ATR nas próximas semanas para ajustar expectativas de remuneração
- Avaliar contratos de longo prazo com usinas que ofereçam maior previsibilidade de preço diante da volatilidade atual do ATR
- Usineiros: reconsiderar o mix de produção entre etanol e açúcar à luz da pressão simultânea sobre ambos os mercados
- Acompanhar o andamento da decisão do CNPE sobre o E32, que pode alterar significativamente a demanda futura por etanol
- Monitorar os preços do petróleo e seus efeitos sobre a paridade do etanol nas próximas semanas
Próximos passos
A safra de cana 2026/27 se inicia neste período no Centro-Sul. O CNPE deve avançar nas discussões sobre o E32 ao longo do segundo semestre. O Portal AgroMais acompanha os preços de ATR e os desdobramentos do setor sucroenergético.
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