Agricultura | Era quase meio-dia quando a mesa mais aguardada da Agro Tauá começou, e o tema não poderia ser mais oportuno: o agronegócio no semiárido, suas oportunidades, desafios e perspectivas para o desenvolvimento regional. Consequentemente, o que se viu na sequência foi um encontro raro, em que um ministro nascido no sertão e o maior produtor de camarão do Brasil traduziram, cada um a seu modo, o que significa empreender e governar para uma das regiões mais desafiadoras do país.
A mesa reuniu André Carlos Alves de Paula Filho, ministro da Agricultura e Pecuária do Brasil, ao lado de nomes de peso do agro cearense: o empresário Cristiano Peixoto Maia, do Grupo Samaria, Fábio Ferreira Feijó, secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado, lideranças do cooperativismo e do setor produtivo, como Valdemar Gomes, da COOPDEST, e David Girão, representando a Alvoar Lácteos, quinta maior indústria de laticínios do Brasil, nascida da união entre a cearense Betânia e a mineira Embaré. Além disso, a Federação da Agricultura do Estado do Ceará, presidida por José Amílcar de Araújo Silveira, também diretor da CNA, foi representada no encontro.
O peso político da mesa se refletiu também na plateia. O debate teve a mediação de Domingos Filho, que ao lado de Domingos Neto recebeu os participantes na condição de anfitrião do evento. Ademais, prestigiaram ainda o encontro a prefeita de Tauá, Patrícia Aguiar, e a vice-prefeita de Fortaleza, Gabriela Aguiar, além de parlamentares e outras lideranças do setor agropecuário, reforçando a relevância do tema para o desenvolvimento do Ceará e de toda a região do semiárido.
Um ministro que conhece o sertão por dentro
A presença de André de Paula carrega um simbolismo que não passou despercebido. Natural do Recife, o ministro é nordestino e conhece de perto as agruras e as potencialidades do semiárido. Antes de assumir a pasta da Agricultura, em abril de 2026, ele comandou o Ministério da Pesca e Aquicultura entre 2023 e 2026, experiência que o aproxima de cadeias produtivas estratégicas para o Nordeste, como a aquicultura e a carcinicultura.
Esse histórico foi lido por muitos dos presentes como uma vantagem concreta para o Ceará e para toda a região. Em outras palavras, ter à frente do Ministério da Agricultura alguém que entende as especificidades da produção nordestina, e que já dialogou com setores como o do camarão, abre uma ponte direta entre as demandas do sertão e as decisões tomadas em Brasília. Para um território historicamente visto como periférico nas políticas agrícolas nacionais, portanto, a diferença é significativa.
Cristiano Maia: persistência, determinação e conta na ponta do lápis
Se o ministro trouxe a perspectiva da política pública, foi Cristiano Maia quem prendeu o público com a narrativa de quem construiu um império a partir do chão do sertão. Nascido na Fazenda Samaria, em Jaguaribara, filho de agricultores e criado entre seis irmãos, ele é hoje reconhecido como o maior produtor de camarão do Brasil e preside a Camarão BR, entidade que reúne os maiores carcinicultores do país.
Os números do seu grupo dão a dimensão da trajetória. A produção é distribuída por todo o país, e a operação envolve laboratórios de pós-larva, indústria de beneficiamento e até uma fábrica de ração que verticaliza a cadeia. Consequentemente, o Ceará, maior produtor nacional, responde sozinho por cerca de 60 mil toneladas de camarão por ano, dentro de uma produção brasileira que gira em torno de 170 mil toneladas anuais e que projeta seguir crescendo.
Mais do que cifras, o que marcou a fala de Cristiano Maia foi a perspectiva de quem empreende com os pés no semiárido. Nesse sentido, ele trouxe o público para o centro do debate ao falar de persistência, de determinação e, sobretudo, da importância de fazer a conta na ponta do lápis, de conhecer custos e de planejar antes de sonhar grande. Sua história, portanto, funcionou como prova viva de que o sertão não é obstáculo, e sim ponto de partida para quem tem disposição de trabalhar.
O semiárido como vocação, não como limite
O debate em Tauá se sustenta em uma base econômica real. O município é o maior criador de ovinos e caprinos do Ceará, concentrando, segundo o IBGE, 7,8% do rebanho caprino e 7,0% do rebanho ovino do estado. Além disso, é também um dos pontos de partida da retomada do algodão cearense e tem na palma forrageira a base alimentar que sustenta o rebanho na convivência com a seca. A mesa, nesse sentido, conversou diretamente com a vocação produtiva da cidade que a sediou.
Ao reunir governo, federação, cooperativas e empresários do porte de Cristiano Maia e David Girão em torno do mesmo tema, a Agro Tauá cumpriu o papel que feiras como essa têm de melhor: encurtar a distância entre quem produz no curral e quem decide as políticas e move os grandes negócios. Consequentemente, o recado que ficou da manhã de sábado foi direto. O semiárido brasileiro não pede pena, pede oportunidade. E, quando ela aparece, o sertão mostra que sabe transformar terra seca em economia que gera emprego, renda e futuro.
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