Ureia recua mais de 40% em 8 semanas e retorna a níveis pré-crise antes da assinatura do acordo

O mercado de fertilizantes já vinha precificando a paz havia semanas — antes mesmo da assinatura do acordo entre Estados Unidos e Irã. Segundo análise da StoneX, os preços internacionais da ureia destinada ao mercado brasileiro acumulam queda superior a 40% após oito semanas consecutivas de desvalorização, retornando aos níveis observados antes do agravamento das tensões no Oriente Médio, no final de março.

Consequentemente, as cotações CFR Brasil — que consideram o custo da mercadoria entregue no porto brasileiro, incluindo frete — já recuaram para patamares inferiores aos registrados antes do início da crise geopolítica, revertendo completamente os ganhos acumulados durante o período de maior incerteza. Para colocar a dimensão da crise em perspectiva: a ureia chegou a subir 50% desde o início da guerra, no final de março, enquanto outros fertilizantes, como o fosfato diamônico, também registraram altas expressivas no mesmo período.

Por que o Estreito de Ormuz pesa tanto nos fertilizantes

Para entender a magnitude do movimento de preços, é preciso compreender a concentração geográfica da produção mundial de fertilizantes nitrogenados. O Golfo Pérsico concentra quase metade de toda a produção mundial de ureia e 30% da amônia, com cerca de um terço de todos os fertilizantes do planeta passando pelo Estreito de Ormuz. Nesse sentido, qualquer interrupção ou ameaça de interrupção nessa rota tem efeito direto e imediato sobre os preços globais.

Além disso, diferentemente do petróleo, o setor de fertilizantes não possui reservas estratégicas coordenadas internacionalmente — o que torna as interrupções no fornecimento muito mais difíceis de gerir e explica por que os preços reagiram com tanta intensidade durante os quatro meses de conflito. Ademais, a interrupção do fornecimento de GNL (gás natural liquefeito) também afetou a produção de fertilizantes, já que o gás natural é insumo fundamental na fabricação de amônia e, consequentemente, de ureia.

O que a queda de 40% significa na prática para o produtor

Para o produtor brasileiro, a magnitude da queda é especialmente relevante porque reflete uma reversão completa do choque de preços observado durante a crise. Em outras palavras, o custo de adubação nitrogenada para a safra 2026/27 pode voltar a patamares semelhantes aos praticados antes do conflito — uma diferença que, para grandes áreas de soja e milho, representa economia significativa no custo total de produção.

Nesse contexto, vale lembrar que o choque de preços e a eventual escassez de fertilizantes durante a temporada de plantio da primavera no Hemisfério Norte chegaram a ameaçar reduzir o plantio e a produtividade do milho nos Estados Unidos — principal matéria-prima para a carne bovina, aves e laticínios americanos —, com potencial de aumentar os preços globais de alimentos até 2027. Consequentemente, a reversão atual nos preços de fertilizantes é uma boa notícia não apenas para o produtor brasileiro, mas para toda a cadeia global de proteína animal.

O timing favorável para a safra 2026/27

A queda nos preços da ureia chega num momento estrategicamente favorável para o produtor brasileiro. Tradicionalmente, o segundo semestre é quando o Brasil amplia as compras de fertilizantes nitrogenados para a safra que começa a ser plantada em setembro e outubro no Centro-Oeste e em novembro no Nordeste. Portanto, quem ainda não fechou contratos de fertilizantes para a próxima safra está numa posição privilegiada para aproveitar a reversão de preços que já está em curso.

O que muda na prática para o produtor

  • Produtores que ainda não fecharam contratos de ureia para a safra 2026/27: o momento atual oferece preços significativamente mais baixos que os observados há poucos meses
  • Comparar as cotações atuais de CFR Brasil com os preços praticados antes de março de 2026 para avaliar o potencial de economia na próxima safra
  • Cooperativas e distribuidores de insumos: revisar os preços já contratados com fornecedores e avaliar possibilidade de renegociação diante da queda expressiva
  • Monitorar também os preços de fosfato diamônico e outros fertilizantes nitrogenados, que seguem tendência similar de correção
  • Para o Nordeste: a queda nos preços é especialmente relevante para a fruticultura irrigada e a pecuária leiteira, dois segmentos com alta demanda por fertilizantes nitrogenados

Próximos passos

A assinatura formal do acordo EUA-Irã ocorre hoje na Suíça, o que deve consolidar ainda mais a tendência de queda nos preços de fertilizantes. O Plano Safra 2026/27 será anunciado em 1º de julho.

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Jakeline Diógenes
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