Salgada, desossada e seca ao sol do sertão, a manta de carneiro é mais do que um prato típico da região dos Inhamuns. Consequentemente, ela está prestes a virar patrimônio com endereço certo. O produto pleiteia junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial, o INPI, o reconhecimento como Indicação Geográfica — e, se conquistar o selo, será o primeiro derivado de ovino do Brasil a ter a origem protegida por lei.
O pedido foi protocolado pela Associação dos Criadores de Ovinos e Caprinos da Região dos Inhamuns, a Ascoci, sediada em Tauá. Além disso, a entidade contou com o apoio do campus Tauá do Instituto Federal do Ceará, o IFCE, e da Embrapa Caprinos e Ovinos, de Sobral, que juntos elaboraram o dossiê de notoriedade do produto. Nesse contexto, o documento reúne artigos científicos, teses, reportagens e registros históricos para comprovar que a região cearense é o polo de procedência da manta no país.
O que torna a manta de carneiro única
A Indicação Geográfica é um registro que vincula um produto ao seu território de origem, atribuindo a ele reputação e identidade próprias. No caso da manta, portanto, o que sustenta o pedido é a combinação entre o ambiente da Caatinga, a alimentação que os animais encontram nas pastagens nativas e o método artesanal de desossa, salga e secagem da carne. Em outras palavras, é essa soma de fatores naturais e humanos que dá ao produto o sabor singular reconhecido por quem consome.
Para o presidente da Ascoci, Kleyton Pedrosa, o reconhecimento é o passo que falta para transformar tradição em renda. Segundo ele, a carne de carneiro dos Inhamuns já é muito procurada para consumo, mas é preciso avançar na construção de uma identidade original da manta para agregar valor ao produto. Ademais, a preocupação dos criadores, relata, é garantir mercado para escoar uma produção que vem crescendo nos últimos anos.
Da tradição à prateleira
O processo de certificação envolve etapas técnicas que vão muito além do protocolo no INPI. Nesse sentido, o IFCE e a Embrapa produziram o caderno de especificações técnicas do produto, discutido e aprovado em assembleia com os próprios produtores, além do regulamento do Conselho Regulador, que define as normas de uso e gestão do selo. Também foi feita a delimitação da área geográfica que terá direito a usar a indicação.
O reconhecimento conversa com um movimento maior. A região dos Inhamuns foi escolhida como piloto, no Ceará, para a instalação do Sistema Agropecuário de Produção Integrada de ovinos — um modelo que busca rastreabilidade, segurança alimentar e organização da base produtiva. Consequentemente, a manta, nesse desenho, deixa de ser apenas o prato da feira para se tornar a ponta visível de uma cadeia que quer profissionalizar a ovinocultura do sertão.
Enquanto o pedido tramita, a Agro Tauá coloca o tema no centro do debate. Portanto, a presença de lideranças da ovinocaprinocultura na programação transforma a feira em vitrine para um produto que pode, em breve, carregar no rótulo aquilo que o sertanejo sempre soube de cor: que manta de carneiro de verdade tem lugar de nascimento, e ele fica nos Inhamuns.
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