Crédito rural | O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) se reúne nesta semana — e a expectativa do mercado é que a decisão interrompa o ciclo de corte de juros. Segundo a ASA (Azimut Santo Agostinho), a Selic deve ser mantida em 14,25% ao final de 2026, com apenas mais um corte de 25 pontos-base. Nesse contexto, o acordo EUA-Irã, que animou os mercados e derrubou o petróleo, não foi suficiente para alterar as expectativas dos analistas sobre a política monetária brasileira.
Para o agronegócio, a manutenção da Selic em patamar elevado tem efeito direto sobre o custo do crédito rural e sobre o volume do Plano Safra 2026/27. Consequentemente, o produtor que aguardava uma queda mais rápida dos juros para viabilizar o financiamento da próxima safra deve recalibrar suas expectativas.
Por que o acordo EUA-Irã não muda o Copom
A lógica da ASA é direta: mesmo com o alívio geopolítico do acordo EUA-Irã, o cenário doméstico brasileiro segue pressionado por fatores estruturais que o BC não pode ignorar. Em primeiro lugar, as expectativas de inflação para o horizonte mais longo (2028 e 2029) seguem em deterioração. Em segundo lugar, o mercado de trabalho está aquecido, sustentando a demanda interna e limitando a velocidade do desinflacionamento.
Além disso, a Petrobras e o Governo seguraram boa parte do repasse da alta do petróleo aos combustíveis nos últimos meses — o que deixa pouco espaço para a inflação se beneficiar de eventual recuo do barril com o acordo EUA-Irã. Nesse sentido, o impacto do acordo sobre a inflação brasileira é mais limitado do que parece à primeira vista.
Por outro lado, a ASA aponta que os efeitos de segunda ordem dos fertilizantes caros já começam a aparecer na inflação de alimentos — com pressão sobre bens industrializados ao longo da cadeia produtiva. Sendo assim, o BC tem pouco espaço para afrouxar a política monetária neste momento.
O impacto da Selic alta no crédito rural
A manutenção da Selic em 14,25% tem três efeitos diretos sobre o crédito rural. Em primeiro lugar, o custo de equalização do Plano Safra — que é o subsídio pago pelo Tesouro para cobrir a diferença entre a Selic e a taxa final cobrada do produtor — aumenta. Portanto, o governo tem menos espaço para oferecer o volume de crédito pedido pelo setor (R$ 670 bi) sem comprometer o fiscal.
Em segundo lugar, as linhas de crédito com taxas de mercado ficam mais caras. O produtor que não tem acesso ao Pronaf ou ao FNE do BNB vai pagar taxas próximas a Selic + 3% ou 4% ao ano — o que representa 17% a 18% ao ano. Nesse nível, o crédito só se paga se a margem da safra for expressiva.
Em terceiro lugar, o custo de carregamento de estoques aumenta. Com a Selic a 14,25%, manter soja ou milho em armazém por um mês custa aproximadamente 1,2% do valor do produto. Sendo assim, a decisão entre vender agora ou aguardar melhores preços precisa levar esse custo em conta de forma explícita.
O que muda na prática para o produtor
- Não apostar em queda rápida da Selic para viabilizar operações de financiamento — o cenário mais provável é Selic a 14,25% até o fim de 2026
- Priorizar linhas de crédito com recursos controlados (Pronaf, Pronamp, FNE do BNB) que têm taxas subsidiadas abaixo da Selic
- Calcular o custo de carregamento de estoques com Selic a 14,25% — aproximadamente 1,2%/mês sobre o valor do produto armazenado
- Aguardar o Plano Safra 2026/27 (1º de julho) para conhecer as taxas específicas das linhas subsidiadas — só depois fechar contratos de financiamento para a próxima safra
- Produtores com dívidas no ciclo atual: verificar as condições de renegociação antes de 30 de junho, quando o Plano Safra 2025/26 encerra
Próximos passos
O Copom se reúne nesta semana e divulga sua decisão na quarta-feira (18). O Plano Safra 2026/27 será anunciado em 1º de julho. O Plano Safra 2025/26 encerra em 30 de junho.
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