Açúcar em queda, etanol em alta e a janela do Mercosul-UE Análise de Mercado | O setor sucroenergético do Nordeste brasileiro vive em 2026 uma transição inevitável — e estrategicamente necessária. Depois de uma safra 2025/26 marcada por preços ruins do açúcar no mercado internacional, perdas de qualidade da cana por excesso de chuvas em alguns estados e o impacto das tarifas americanas sobre as exportações regionais de açúcar, as usinas nordestinas estão migrando aceleradamente para o etanol. Em Alagoas, maior estado produtor da região, 12 das 15 usinas operantes priorizaram o etanol na safra 2025/26. O setor sucroenergético nordestino projetou alta de 39,8% na produção de etanol anidro na mesma safra — o componente cujo mercado deve ser ampliado ainda mais pelo E32. Na Paraíba, a produção de açúcar caiu 24% enquanto as usinas reforçaram o biocombustível. Mas há também uma oportunidade nova no horizonte: o acordo Mercosul-UE, em vigor desde 1º de maio de 2026, abre cotas de açúcar e etanol para a Europa com tarifas zeradas ou reduzidas — e o Nordeste tem uma vantagem logística real sobre o Centro-Sul para acessar esse mercado. Análise de mercado: o perfil do setor sucroenergético do nordeste O setor sucroenergético do Nordeste está concentrado na chamada Zona da Mata — faixa litorânea que abrange partes de Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e o Recôncavo Baiano. Essa região tem condições agronômicas específicas: clima quente e úmido, com precipitação entre 1.800 e 2.000 mm anuais bem distribuídos, que favorecem o cultivo da cana. As usinas nordestinas são, em sua maioria, menores e mais antigas que as do Centro-Sul. A capacidade de moagem média das plantas nordestinas é inferior à das usinas paulistas ou mato-grossenses — o que significa custos industriais por tonelada de cana processada proporcionalmente maiores. Essa desvantagem de escala é o principal fator que reduz a competitividade do açúcar nordestino no mercado internacional. Em contrapartida, o Nordeste tem duas vantagens estruturais que o Centro-Sul não tem: proximidade logística com os mercados europeus e africanos (os portos nordestinos estão 10 a 14 dias mais próximos da Europa do que Santos ou Paranaguá) e foco histórico no etanol anidro — exatamente o produto cuja demanda vai crescer com o E32. Setor sucroenergético: A crise do açúcar e a migração para o etanol A safra 2025/26 foi difícil para o setor nordestino. Os preços do açúcar no mercado de Pernambuco caíram 21% em novembro em relação ao mesmo período do ano anterior. Em Alagoas, o recuo foi de 14%. O excesso de chuvas comprometeu o ATR (Açúcares Totais Recuperáveis) — principal indicador de qualidade da cana —, reduzindo a eficiência industrial das usinas. A isso se somaram os efeitos do tarifaço americano sobre as exportações de açúcar nordestino. Os EUA historicamente concediam cotas preferenciais ao açúcar de alguns estados nordestinos — benefício que foi afetado pelas mudanças na política comercial americana durante a guerra tarifária. O resultado foi uma reorganização do mix de produção. Com o açúcar menos rentável e o etanol com margem positiva, 12 das 15 usinas alagoanas e várias pernambucanas e paraibanas deslocaram sua produção para o biocombustível. A produção de etanol anidro no Nordeste cresceu 39,8% na safra 2025/26 — contra queda na produção de açúcar e recuo de 13,4% no etanol hidratado. Setor sucroenergético: O E32 e o impacto direto para as usinas nordestinas A aprovação do E32 pelo CNPE é a melhor notícia possível para o setor sucroenergético nordestino no curto prazo. O etanol anidro — que é justamente o produto que as usinas nordestinas priorizaram — é o componente da mistura cuja demanda será ampliada pela medida. Segundo o presidente da NovaBio, Renato Cunha, que representa o setor em Pernambuco e Alagoas, a adoção do E32 ‘vai crescer o mercado do álcool anidro em 1 bilhão de litros e é um antigo pleito do setor’. Para as usinas nordestinas, que produzem etanol anidro com mercado interno garantido pela política de mistura obrigatória, o E32 representa receita adicional direta — sem necessidade de exportar, sem exposição ao câmbio e sem as barreiras sanitárias que afetam o açúcar. O Nordeste produz aproximadamente 2 bilhões de litros de etanol por ano — cerca de 4,7% do total nacional. Com o E32, a fatia da demanda garantida por política pública aumenta, o que beneficia proporcionalmente as usinas menores — como as nordestinas — que dependem mais do mercado regulado do que do mercado spot. O Mercosul-UE: a janela que o Nordeste está mais preparado para aproveitar O acordo Mercosul-União Europeia, em vigor desde 1º de maio de 2026, inclui cotas de açúcar e etanol com tarifas zeradas ou reduzidas para exportação ao mercado europeu. Para o setor sucroenergético nordestino, esse é um dos desenvolvimentos mais estratégicos dos últimos anos. O Sindalcool, que representa as usinas de açúcar e etanol da Paraíba, foi direto: ‘O grande benefício para a região Nordeste é o menor custo logístico.’ Os portos nordestinos — Suape (PE), Pecém (CE), Natal (RN) e Salvador (BA) — estão geograficamente mais próximos da Europa do que os portos do Centro-Sul. A travessia do Porto de Suape ao Porto de Rotterdam leva aproximadamente 10 dias a menos que a travessia de Santos. Essa vantagem logística se traduz diretamente em menor custo de frete por tonelada — o que pode compensar parcialmente a desvantagem de escala industrial das usinas nordestinas em relação às paulistas e mato-grossenses. Para o açúcar VHP (Very High Polarization) e o açúcar refinado, que têm maior valor agregado e maior distância de transporte até os consumidores finais europeus, a vantagem logística do Nordeste é especialmente relevante. Os desafios estruturais que precisam ser superados Apesar das oportunidades, o setor sucroenergético nordestino enfrenta desafios estruturais que precisam ser endereçados para que as usinas possam aproveitar plenamente o E32 e o Mercosul-UE. O primeiro é a modernização industrial. As plantas nordestinas, em sua maioria mais antigas, têm custos industriais por tonelada de cana processada superiores aos do Centro-Sul. Investimentos em automação, eficiência energética e cogeração de