Mulheres na Ciência Agro: guia essencial contra barreiras reais

Mulheres na ciência agro são maioria nas universidades, lideram rankings de titulação e acumulam mais diplomas de doutorado do que os homens. Ainda assim, chegam em menor número ao topo das carreiras científicas. Esse paradoxo tem nome: teto de vidro. E tem consequências diretas para o agronegócio brasileiro.

A constatação foi tema de uma entrevista especial exibida na TV Portal AgroMais em comemoração ao Dia da Mulher. A pesquisadora Nível Dias, que conduz estudos sobre o cenário acadêmico feminino na ciência, explicou com clareza as raízes do problema — e apontou caminhos concretos para transformá-lo.

O debate vai muito além do ambiente acadêmico. Num setor que depende cada vez mais de ciência, inovação e capital humano qualificado, deixar metade do potencial científico represado por barreiras estruturais é um problema estratégico para o agro.


Maternidade: um fenômeno natural tratado como obstáculo

A maternidade aparece como uma das barreiras mais marcantes na trajetória de mulheres cientistas. Não por ser um problema em si, mas pelo modo como o mercado e as instituições a tratam.

Segundo Nível Dias, é comum que mulheres em entrevistas de emprego ou de seleção para programas de pós-graduação sejam questionadas sobre a maternidade. Perguntas como “você é mãe?” ou “como vai conciliar sua pesquisa com os filhos?” fazem parte de um roteiro que raramente é apresentado a candidatos homens.

A pesquisadora, mãe de uma filha de 12 anos, relata que a transição para a maternidade reorganizou completamente sua rotina de trabalho e pesquisa. O tempo disponível para produção científica diminuiu. A gestão da agenda passou a incluir compromissos escolares, médicos e domésticos que, na maior parte das famílias, ainda recaem sobre a mulher.

“A maternidade não é um problema. É um fenômeno natural. O desafio são as oportunidades que as mulheres não têm quando se tornam mães”, afirmou a pesquisadora.

O impacto é mensurável. Mulheres que chegam à maternidade durante a trajetória acadêmica tendem a ter menor produção indexada, menos participação em eventos científicos e menor visibilidade institucional — não por falta de capacidade, mas por falta de estrutura e sensibilidade organizacional.


O que os dados mostram sobre mulheres na ciência

A pesquisa conduzida por Nível Dias mapeou o cenário acadêmico feminino no Brasil e chegou a uma conclusão que expõe a contradição do sistema: as mulheres dominam os bancos das universidades, mas não chegam às posições de liderança.

São maioria nas graduações. São maioria nas pós-graduações. Conquistam mais títulos de doutorado do que os homens. E, mesmo assim, ao cruzar a porta do emprego ou ao disputar posições de gestão e coordenação científica, encontram uma barreira invisível — o teto de vidro.

Os homens, em contrapartida, conseguem ascender com mais facilidade dentro das mesmas estruturas. O resultado é um topo de carreira ocupado majoritariamente por homens, enquanto mulheres igualmente qualificadas permanecem em posições intermediárias.

O dado mais relevante da pesquisa reforça que o problema não é de competência. Quando mulheres chegam ao mesmo nível que seus colegas homens, o desempenho é equivalente. A diferença está no acesso, não na capacidade.

Esse cenário tem impacto direto na ciência aplicada ao agronegócio. Pesquisas em áreas como agronomia, biotecnologia, sanidade animal, nutrição e melhoramento genético dependem de equipes diversas para gerar inovação com mais amplitude. Restringir o acesso feminino às posições de liderança científica é, na prática, restringir o potencial de avanço do próprio setor.


O que precisa mudar: sensibilização, flexibilidade e equidade real

A pesquisadora não se limita a diagnosticar o problema. Ela aponta caminhos práticos e acessíveis para que instituições, empresas e o agronegócio avancem nessa agenda.

O primeiro passo é reconhecer o viés de gênero nos processos seletivos e nas avaliações de desempenho. Quem seleciona, promove ou avalia profissionais precisa estar consciente de que julgamentos aparentemente neutros podem carregar distorções estruturais.

O segundo passo é a flexibilidade operacional. Um exemplo citado na entrevista é direto: marcar reuniões após as oito da manhã, respeitando o horário em que mães levam filhos à escola, já seria um avanço concreto. Não pedir trabalho nos fins de semana sem considerar a carga doméstica que recai sobre as mulheres é outro passo simples com impacto real.

O terceiro ponto é o reconhecimento de que competência é uma condição humana, independente de gênero. Quando as mulheres têm acesso às mesmas oportunidades, os resultados mostram que elas entregam o mesmo desempenho — ou superior.

Para o agronegócio, esse movimento tem valor estratégico. Um setor que avança em sustentabilidade, tecnologia e governança não pode ignorar a equidade de gênero como parte de sua agenda de evolução. Mulheres que fazem ciência no campo, nos laboratórios e nas universidades são parte fundamental da construção de um agro mais forte, mais inteligente e mais competitivo.

Elas já estão fazendo história. O que falta é que as estruturas deixem de criar obstáculos para que essa história seja escrita em sua totalidade.


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Jakeline Diógenes

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