Agro em Análise | A alta de fertilizantes voltou a ser o maior problema do campo brasileiro em 2026. Depois de anos de relativa estabilidade, a ureia — o fertilizante nitrogenado mais utilizado no país — registrou alta de 89% no comparativo anual em março, chegando a cerca de US$ 710 por tonelada (CFR Brasil). Em apenas dez dias, desde o início dos bombardeios no Oriente Médio até 6 de março, o preço subiu 33%. O choque foi violento, imediato e assimétrico: as commodities agrícolas não subiram na mesma proporção, deteriorando a relação de troca do produtor. Nas últimas três semanas, a ureia recuou aproximadamente 8% nas cotações internacionais e brasileiras, segundo análise da StoneX. Mas os preços ainda permanecem 53% acima dos níveis registrados antes do conflito no Oriente Médio — um patamar que segue pressionando os custos de produção para a safra 2026/27. Esta análise examina os fatores que moldaram o mercado de fertilizantes em 2026, o impacto real sobre o produtor rural nordestino e as perspectivas para os próximos meses — incluindo o que muda com a retomada das operações da Fafen-BA. Alta de Fertilizantes: O que aconteceu com os preços em 2026 A trajetória dos fertilizantes nitrogenados em 2026 pode ser dividida em três fases. A primeira, de janeiro a fevereiro, foi de pressão crescente: os principais fertilizantes já acumulavam alta de 12% em relação a 2025, com ureia, potássio e fosfatados sentindo a combinação de demanda global aquecida, oferta apertada e energia cara. A segunda fase, em março, foi de choque abrupto. A escalada do conflito no Oriente Médio — com ataques a refinarias no Bahrein e intensificação das tensões envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos — fez a ureia disparar. As cotações CFR Brasil chegaram a US$ 710 por tonelada, com alta de 50% em apenas um mês. O MAP (fosfatado) subiu 17% no mesmo período, chegando a US$ 850 por tonelada. No pico, o produtor brasileiro precisava de 36 sacas de milho para comprar uma tonelada de ureia — cinco sacas a mais do que no início do ano. A terceira fase, de abril em diante, é de correção parcial. Com o cessar-fogo temporário no Oriente Médio e a recomposição gradual dos fluxos logísticos, os nitrogenados cederam parte da alta. A ureia, o nitrato de amônio e o sulfato de amônio acumulam quedas nas últimas semanas. Mas o nível atual ainda está muito acima do equilíbrio histórico — e a volatilidade permanece elevada. Alta de Fertilizantes: Por que o Brasil é tão vulnerável? O Brasil importa entre 85% e 90% dos fertilizantes que consome. É o quarto maior consumidor global do insumo, responsável por 8% de todo o fertilizante utilizado no mundo. Essa dependência estrutural cria uma vulnerabilidade dupla: qualquer perturbação nos países produtores — Rússia, Ucrânia, Irã, China — chega diretamente ao bolso do produtor brasileiro. O analista de Inteligência de Mercado da StoneX, Tomás Pernías, resume o mecanismo: ‘Os compradores brasileiros precisam acompanhar de perto os movimentos globais, pois a sazonalidade de grandes consumidores como EUA, China e Índia pode gerar oscilações expressivas nos preços e impactar o custo de aquisição.’ Quando os EUA entram na fase de plantio, a demanda americana puxa os preços para cima. Quando a Índia realiza grandes licitações de ureia, os preços globais reagem. O Brasil, como importador líquido, é o receptor passivo dessas oscilações. A situação foi agravada em 2026 pelo comportamento do câmbio. Com o dólar oscilando entre R$ 4,89 e R$ 5,20 nos últimos meses, a combinação de preços externos elevados e câmbio volátil tornou o planejamento de compra de insumos especialmente difícil. O produtor que esperou demais para fechar contratos pagou mais. O que antecipou demais pode ter travado preços em patamares que não refletem a correção recente. Alta de Fertilizantes: O impacto real na safra 2026/27 O Imea (Instituto Mato-Grossense de Economia Aplicada) estimava, até fevereiro, o custo operacional da soja em Mato Grosso para a safra 2026/27 em R$ 5.827,81 por hectare — exigindo R$ 90,04 por saca para cobrir as despesas. Com a alta da ureia em março, esse número foi revisado para cima. Os relatórios subsequentes do Imea devem confirmar o impacto. Para o Nordeste, a pressão é proporcionalmente maior. O custo de frete de fertilizantes importados é mais alto nas regiões distantes dos portos de Santos e Paranaguá — o que significa que o produtor nordestino paga mais caro pelo mesmo produto do que seu concorrente no Centro-Oeste. A fruticultura irrigada do Vale do Jaguaribe, a cajucultura e as pastagens do semiárido dependem de nitrogênio para manter produtividade — e todos esses sistemas sentiram a alta de março. O Congresso Abramilho, realizado em Brasília em maio, foi explícito: a maior dificuldade para a safra 2026/27 está no preço e disponibilidade de fertilizantes. O presidente da Abramilho, Paulo Bertolini, alertou que o cenário pode impactar diretamente o volume plantado na próxima safra de milho. Alta de Fertilizantes: A Fafen-BA e o começo de uma soberania A retomada da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados da Bahia (Fafen-BA), em Camaçari, com 1.300 toneladas diárias de ureia, é o movimento mais significativo do Estado brasileiro para reduzir essa vulnerabilidade estrutural em anos. Somada à Fafen-SE (Sergipe) e à Araucária Nitrogenados (Paraná), a Petrobras já cobre cerca de 20% da demanda nacional de ureia. A meta de 35% até 2029 — com a entrada em operação da UFN-III em Três Lagoas (MS) — é ambiciosa, mas viável. O pré-requisito que faltava foi resolvido: o gás natural, que custava US$ 16 por milhão de BTU quando as Fafens foram hibernadas, caiu para entre US$ 6 e US$ 7 — tornando a produção economicamente sustentável. Para o Nordeste, a reativação da Fafen-BA e da Fafen-SE tem dimensão especial. Pela primeira vez em anos, a região conta com capacidade de produção local de nitrogenados — o que pode reduzir custos de frete e logística à medida que a produção escale e as redes de distribuição se consolidem. Mas é necessário ser realista: a Fafen-BA produz