A pecuária leiteira no Ceará tem nome, história e endereço. De Limoeiro do Norte, no Vale do Jaguaribe, vem uma das trajetórias mais representativas do que é possível construir com dedicação, inovação e sucessão familiar no campo. Moisés é produtor rural há décadas. Com 69 anos e cabelos brancos que contam a história de quem não desistiu, ele segue na lida com o mesmo entusiasmo de quem está começando. A diferença é que, hoje, ele colhe os frutos de escolhas feitas com foco e coragem. De 20 litros por dia a um rebanho de referência A história começou pequena — como quase toda história grande começa. Moisés iniciou sua produção com apenas 20 litros de leite diários. O objetivo, naquele momento, era simples: ajudar a pagar as despesas da família e garantir que os filhos fossem à escola. Com o tempo, o que era necessidade virou paixão. E a paixão virou sistema. Hoje, a propriedade acumula 17 anos de inseminação artificial, rebanho geneticamente selecionado e quatro filhos — dois homens e duas mulheres — trabalhando dentro da propriedade, com formação e comprometimento com o mesmo segmento do pai. “Formei meus filhos à custa de peito de vaca”, afirmou Moisés, em entrevista ao Portal AgroMais. Inovação e foco: os dois pilares que sustentam o crescimento Nos últimos anos, o Ceará passou por períodos de escassez hídrica que impactaram diretamente a pecuária. O rebanho estadual diminuiu. Mas algo contraditório aconteceu: a produção de leite cresceu. A explicação está na genética. Produtores que investiram na seleção do rebanho e na melhoria técnica conseguiram produzir mais com menos animais. Moisés é um desses casos. Mas não basta ter boa genética se não houver direção. Para ele, o grande erro de muitos produtores é mudar o foco no meio do caminho. “Já encontrei muita gente me chamando para criar camarão, ir para o corte. Eu digo não. Foco no leite. Quem é de leite fica no leite”, declarou. Essa convicção não é teimosia — é estratégia. Quem muda de segmento sem planejamento perde o tempo de construção, os investimentos acumulados e o domínio técnico que só vem com os anos. Assistência técnica: o gargalo que o campo ainda precisa resolver Um dos pontos mais críticos levantados por Moisés é a falta de mão de obra especializada e de assistência técnica acessível ao produtor familiar. “Sem assistência técnica, você não vai para canto nenhum”, afirmou. “As grandes empresas contratam os melhores profissionais do país e do mundo. O produtor rural precisa ter acesso a isso também.” O cenário tende a mudar. A globalização do agronegócio está pressionando por profissionalização em todos os níveis. Em dez anos, o setor vai exigir mão de obra qualificada de forma estrutural — e os produtores que não se prepararem vão ficar para trás. A mensagem é clara: a janela de adaptação está aberta agora. Sucessão rural: o legado que vale mais do que qualquer número Talvez o maior indicador de sucesso na trajetória de Moisés não seja o rebanho nem a produção. É o fato de que todos os quatro filhos moram na propriedade, trabalham no mesmo segmento e carregam a mesma visão. A sucessão rural é um dos maiores desafios do agronegócio brasileiro. Muitas propriedades familiares se perdem quando os filhos deixam o campo em busca de outras oportunidades. Quando isso não acontece, é sinal de que algo foi construído com valor real. “Para mim, isso não tem preço”, disse Moisés, ao falar dos filhos e dos netos que crescem na propriedade. Essa é a prova de que a pecuária leiteira, quando bem conduzida, não é apenas uma atividade econômica. É um projeto de vida, de território e de futuro. O Portal AgroMais percorre o Ceará e o Nordeste registrando as histórias que movem o agronegócio brasileiro. Acompanhe a TV Portal AgroMais e fique por dentro das narrativas do campo.
Câncer de mama no campo: novo exame protege produtoras
O rastreio do câncer de mama no campo ganhou uma ferramenta inédita no Brasil. Em parceria com o Senar, uma empresa de saúde desenvolveu o teste Rosalind — método à base de coleta de sangue capaz de detectar marcadores associados ao câncer de mama. A iniciativa foi apresentada ao vivo pela TV Portal AgroMais e está sendo testada no município de Quixadá, no interior do Ceará, com ações simultâneas em cidades de São Paulo. A novidade chega em um momento em que milhares de mulheres que vivem em propriedades rurais ainda enfrentam longas distâncias e filas de espera para acessar uma mamografia. Para elas, o diagnóstico precoce segue sendo um privilégio distante — e esse é exatamente o problema que o Rosalind se propõe a resolver. Um exame simples que pode mudar o diagnóstico no interior O diferencial do teste é a sua escalabilidade. Ao contrário da mamografia convencional, o método não exige equipamentos robustos nem infraestrutura hospitalar. Uma simples coleta de sangue já é suficiente para realizar o procedimento. O diagnóstico final continua sendo responsabilidade médica. O teste funciona como ferramenta complementar — ao lado da mamografia e da ultrassonografia — para ampliar a capacidade de rastreio e antecipar achados suspeitos. Segundo os responsáveis pelo projeto, o exame não pretende substituir os métodos tradicionais, mas chegar onde eles ainda não chegam. Isso muda tudo para as mulheres do interior do Brasil que estão longe dos grandes centros ou aguardam na fila do sistema público de saúde. Senar leva saúde preventiva à porta da propriedade rural O piloto em Quixadá prevê a realização de 100 testes, distribuídos em dois locais de atendimento no Ceará e em municípios de São Paulo. A estrutura utilizada é a carreta da saúde do Senar — unidade móvel itinerante com capilaridade já consolidada nas comunidades rurais. Além do teste Rosalind, as participantes têm acesso a atendimento de clínico geral, avaliação de saúde bucal, rastreio de câncer de boca, massagem, manicure e atividades de educação em saúde. O modelo comprova que saúde preventiva no campo pode ser integrada, humanizada e tecnicamente qualificada. A próxima etapa prevê que os próprios agentes de campo do Senar apliquem o teste durante suas visitas regulares às propriedades. Isso representa uma expansão significativa do alcance da ação — sem depender de deslocamento das mulheres para centros urbanos. O campo cuida do Brasil. Agora o Brasil cuida do campo A parceria entre o Senar e a empresa desenvolvedora do Rosalind representa mais do que um projeto de saúde. Ela carrega uma lógica essencial: o campo sustenta a economia do país e, em retribuição, merece receber cuidado com a mesma seriedade com que produz. A meta é escalar o modelo para todo o Brasil, com foco especial nas regiões do interior. Se os resultados do piloto forem positivos, agentes do Senar em diferentes estados poderão incorporar o teste à sua rotina de visitas técnicas. O câncer de mama no campo deixa de ser, aos poucos, uma doença descoberta tarde. E isso começa com uma gota de sangue coletada no meio do sertão. Para acompanhar as próximas etapas desse projeto e outras iniciativas de saúde e bem-estar no campo, continue acessando o Portal AgroMais.
Novos Mercados no Agro: Guia Prático para Proteína Animal
A abertura de mercado agro avançou mais um passo nesta semana. O governo brasileiro anunciou, no dia 14 de abril, a habilitação de novos destinos para proteínas e material genético animal em três países: Vietnã, Angola e El Salvador. O pacote inclui pé e miúdos suínos para o mercado asiático, oócitos ovinos e caprinos para o continente africano, e carne de frango termoprocessada para a América Central. Na prática, a medida representa muito mais do que um avanço diplomático. Ela sinaliza uma mudança estrutural na forma como o Brasil gerencia seus riscos comerciais no agro — e abre janelas concretas de receita para setores que ainda não aproveitam seu potencial de exportação. Por que diversificar destinos importa agora O contexto global pressiona o agronegócio a reduzir dependência de poucos compradores. A concentração excessiva em mercados como China, União Europeia e Estados Unidos expõe produtores e empresas a flutuações de câmbio, barreiras sanitárias e decisões geopolíticas que fogem ao controle nacional. A abertura simultânea para três países em diferentes regiões do mundo segue exatamente essa lógica: distribuir risco, ampliar receita e garantir continuidade operacional mesmo quando um mercado principal enfrenta turbulência. No caso dos miúdos e pé suínos para o Vietnã, a habilitação resolve um gargalo histórico. Esses subprodutos têm baixa demanda interna no Brasil, mas são valorizados na culinária asiática. Exportá-los agrega receita a partes da carcaça que, sem destino externo qualificado, reduzem a margem do frigorifico. O Nordeste no centro da equação caprina e ovina A abertura para Angola merece atenção especial no contexto regional. A habilitação de oócitos ovinos e caprinos como produto de exportação coloca o Brasil — e, em particular, o Nordeste — em uma posição estratégica dentro do mercado de genética animal. O semiárido brasileiro concentra o maior rebanho caprino e ovino do país. Estados como Ceará, Piauí, Bahia e Pernambuco têm tradição centenária nessas cadeias, mas ainda exportam pouco em termos de valor agregado. Material genético — como oócitos — representa exatamente o topo dessa cadeia: tecnologia, seleção e ciência aplicada à produção animal. Para Angola, um país com crescimento constante na pecuária e interesse em modernizar sua produção, o material genético brasileiro chega com vantagem competitiva: adaptação climática ao ambiente tropical, raças selecionadas para o semiárido e custo competitivo em relação a fornecedores europeus. El Salvador e o frango: um mercado pequeno com sinal importante A habilitação de carne de frango termoprocessada para El Salvador não movimenta volumes expressivos de imediato. Mas o sinal é relevante: o Brasil consolida sua presença na América Central com um produto de maior valor agregado — o frango termoprocessado, diferente do in natura, tem maior vida útil, facilita logística e exige tecnologia de processamento que o Brasil já domina. A presença em mercados menores serve, também, como porta de entrada para negociações regionais mais amplas. El Salvador integra o Mercado Comum Centro-Americano, e habilitações no país abrem precedente para conversas com vizinhos do bloco. O que muda, quem ganha e quem precisa se adaptar O que muda: o Brasil amplia seu portfólio de destinos habilitados, reduz dependência de compradores concentrados e abre espaço para produtos antes sem saída internacional qualificada. Quem ganha: frigoríficos que processam suínos e buscam destino para subprodutos; criadores de ovinos e caprinos do Nordeste com potencial genético a ofertar; empresas de avicultura com capacidade de processamento termoprocessado. Quem precisa se adaptar: produtores que ainda trabalham com padrões sanitários e documentação abaixo do exigido para exportação. Cada mercado habilitado tem protocolo específico — e empresas que não estiverem adequadas às exigências do Ministério da Agricultura ficam de fora da oportunidade. Visão de médio prazo: consistência acima de volume Aberturas de mercado não geram receita no dia seguinte. O processo envolve habilitação de empresas, adequação sanitária, logística e construção de relacionamento com importadores locais. O prazo real para que esses fluxos se consolidem varia de meses a anos. O que o agronegócio brasileiro — e especialmente o Nordeste — precisa fazer agora é se preparar. Mapear quais empresas já atendem os requisitos, identificar os gargalos de adequação e mobilizar entidades setoriais para acelerar o processo de habilitação junto ao Mapa. A abertura foi anunciada. A janela está aberta. Cabe ao setor decidir se vai passar por ela.
Rações para Agronegócio Nordeste: Samaria Dobra Produção
Rações para agronegócio no Nordeste ganharam um novo patamar. Com investimentos que ultrapassam R$ 50 milhões, a Samaria Rações — empresa do Grupo Samaria, controlado pelo empresário cearense Cristiano Maia — está concluindo uma expansão que dobra sua capacidade produtiva e consolida a empresa como a maior fabricante de rações do Nordeste. A unidade de Fortaleza, localizada na margem norte do IX Anel Viário, saltou de 8 mil para 12 mil toneladas produzidas por mês. Somada à unidade de Goiana, em Pernambuco, a empresa chega hoje a 15 mil toneladas mensais. A projeção é atingir 20 mil toneladas até dezembro deste ano. Para quem acompanha o setor, os números traduzem uma virada histórica: quando Cristiano Maia adquiriu a fábrica cearense, em 2019, da multinacional holandesa Trouwt Nutrition, a produção era de apenas 1 mil toneladas por mês. Da carcinicultura aos pets: um portfólio em expansão Metade da produção da Samaria Rações é destinada à carcinicultura. O principal cliente é a própria Samaria Camarões — braço do grupo que figura entre os maiores produtores de camarão do Brasil, com fazendas em Pendência (RN), Beberibe e Paraipaba (CE). O restante da produção abastece um mercado em crescimento acelerado: rações para pets, peixes, equinos e bovinos. E é exatamente neste último segmento que a empresa prepara um movimento estratégico. Cristiano Maia anunciou, com exclusividade para um grupo de 29 empresários que visitaram a fábrica fortalezense, que a Samaria passará a produzir uma ração especial para bovinos de corte. A decisão está diretamente ligada à chegada do frigorífico industrial do Grupo Masterboi em Iguatu, no Centro-Sul do Ceará — iniciativa que deve impulsionar o rebanho bovino estadual e ampliar a demanda por nutrição animal de qualidade. Tecnologia de ponta no coração do semiárido A expansão não é apenas volumétrica. É tecnológica. A unidade cearense, que ocupa três hectares no limite entre Fortaleza e Itaitinga, recebeu novos equipamentos industriais de alta performance, incluindo 19 silos metálicos verticais com capacidade de armazenamento entre 230 e 2 mil toneladas cada, além de uma moega com processamento de 90 toneladas por hora. Todo o processo de produção é controlado por computador e gerido por executivos com experiência em grandes empresas do setor, oriundos do Sudeste. A operação acontece 24 horas por dia, 7 dias por semana, em três turnos, com 300 colaboradores na unidade de Fortaleza. O controle de qualidade segue padrão igualmente rigoroso. O laboratório técnico da empresa — dirigido por uma engenheira de alimentos e duas químicas — analisa os 22 insumos utilizados na composição das rações com um exame a cada minuto. Desses insumos, 88% são de origem vegetal, entre eles farelo de soja, sorgo, farinha de trigo, farelo de arroz e farelo de algodão. A visita reuniu nomes de peso do empresariado e da agropecuária cearense, entre eles o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec), Amílcar Silveira, além de representantes de empresas industriais e rurais do estado. O que esse movimento significa para o Nordeste A consolidação da Samaria Rações como potência regional não é um fato isolado. Ela é o reflexo de uma cadeia produtiva que amadurece e cria suas próprias estruturas — reduzindo a dependência de fornecedores do Centro-Sul e gerando valor dentro do próprio território nordestino. Para o produtor rural, significa acesso a insumos de qualidade, com menor custo logístico e suporte técnico local. Para as empresas do agronegócio, sinaliza que o Nordeste está construindo uma base industrial capaz de competir em escala nacional. Com a meta de 20 mil toneladas mensais até o final de 2026 e novos mercados no horizonte — especialmente o de bovinos de corte —, a Samaria Rações deixa claro que a industrialização do agro nordestino não é tendência. É realidade em movimento.