Leite de cabra no sertão cearense é o ponto de partida de uma história de superação, inovação e empreendedorismo rural que vem chamando atenção em Quixadá. A protagonista é Lourença, ex-vendedora que, ao lado do esposo, ergueu o Capriú — um negócio de caprinocultura leiteira que hoje produz queijos artesanais, doces, iogurtes e derivados reconhecidos no mercado regional.
O que começou com um bode dado de presente por um criador local se transformou, ao longo de poucos anos, em uma propriedade produtiva de 5 hectares com rebanho ativo, portfólio diversificado e presença em feiras e editais de fomento em todo o Ceará.
De vendedora a produtora: a virada que transformou o Capriú
Lourença não queria deixar a carreira. Trabalhava como vendedora, viajava de moto e construiu uma trajetória profissional fora do campo. Mas o esposo foi insistente com um argumento simples: quem vende para os outros consegue vender para si mesmo.
Em 2019, o casal deixou a cidade e foi morar no campo. Em 2023, Lourença entrou de vez no negócio familiar. O primeiro passo foi um curso de fabricação de derivados de leite de cabra, realizado em Quixadá e pago com leite — a única moeda disponível naquele momento.
De um único tipo de queijo, o portfólio do Capriú cresceu rapidamente. O carro-chefe se tornou o Pérola do Sertão, queijo artesanal de leite de cabra que conquistou consumidores em feiras e eventos. A primeira experiência com venda direta aconteceu no PEC Nordeste, em 2023. Foi ali que a decisão se confirmou: a caprinocultura seria o caminho.
Agregar valor ao leite de cabra: o caminho para a profissionalização
A estratégia central do Capriú é transformar o leite bruto em produtos acabados com identidade e valor de mercado. Com cursos pelo SENAR e acompanhamento contínuo do Sebrae — presente desde 2024 —, Lourença ampliou o portfólio e chegou a mais de 30 tipos de derivados produzidos na propriedade.
Em 2025, o Capriú foi selecionado para dois editais de alto impacto. O primeiro, Mulheres Rurais, viabiliza a aquisição de equipamentos de inox para melhorar a higienização da produção. O segundo, da Escola de Gastronomia de Fortaleza, oferece oito meses de acompanhamento técnico, análise de leite e desenvolvimento de novos produtos.
O próximo lançamento já tem nome: Ouro do Sertão, um queijo de massa dura em fase de pesquisa e desenvolvimento. Ainda em 2025, o Capriú conquistou o selo municipal de produção — primeiro passo para a regularização sanitária e, no horizonte, um registro que permita comercializar em todo o território nacional.
Sertão que produz: a caprinocultura como caminho de renda e dignidade
A trajetória do Capriú questiona um estereótipo antigo: o de que a cabra é criação de quem vive na pobreza. Para Lourença, a caprinocultura é uma atividade de alto valor, com potencial real de escala e protagonismo no mercado de alimentos artesanais.
Os desafios estruturais ainda existem. A propriedade não dispõe de poço nem cisterna própria. A mão de obra é exclusivamente familiar. Mesmo assim, a produção nunca parou um único dia desde que foi iniciada.
A meta para 2025 é objetiva: colocar os produtos do Capriú nas prateleiras de supermercados que valorizem o artesanal. Não qualquer prateleira — uma que reconheça o processo, a origem e a qualidade do produto. Para Lourença, vender por qualquer preço não é uma opção.
A história do Capriú é uma evidência concreta de que o sertão não é sinônimo de escassez. É um território fértil, onde a combinação entre conhecimento, apoio institucional e determinação converte pequenos rebanhos em negócios reais. Negócios com nome, com identidade e com produtos que chegam à mesa dos consumidores com qualidade, rastreabilidade e sabor.
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