O açude de Orós entrou para a história do Ceará da forma mais brutal possível. Na madrugada de 26 de março de 1960, à meia-noite e dezessete minutos, a parede da barragem — ainda em obras — não resistiu à pressão das águas acumuladas e arrombou. O que veio depois foi um dos maiores desastres hídricos da história do Nordeste brasileiro.
A região do Médio e Baixo Jaguaribe foi varrida por um volume de água comparável a um dilúvio. O rio Jaguaribe extravasou do trecho de Orós até Aracati. Tudo que estava no caminho foi levado: estradas, redes de energia elétrica, plantações, animais e a vida inteira de comunidades ribeirinhas que nem sempre tiveram tempo de reagir.
Uma noite que o sertão não esquece
O arrombamento não deu aviso suficiente. As águas liberadas pelo açude de Orós chegaram à cidade de Jaguaribe às oito horas da manhã seguinte. Antes disso, o Exército Brasileiro já atuava na evacuação da população às margens do rio. Quem não quis sair foi retirado à força.
As famílias foram levadas principalmente para a Pitombeira, onde um acampamento de emergência foi montado para receber os desabrigados. Outros foram encaminhados para municípios vizinhos em terrenos mais altos, como Pereiro.
Cerca de 3.500 habitantes precisaram deixar Jaguaribe. Quando as águas finalmente baixaram e as pessoas retornaram, o que encontraram se assemelhava a um cenário de guerra. Escombros, lama e destruição em todas as direções.
A destruição do açude de Orós chegou com a aurora
Só na cidade de Jaguaribe, 60% das construções foram destruídas. Aproximadamente 647 imóveis foram varridos pelas águas do açude. A destruição não poupou nem a estrutura produtiva do município — nem sua memória econômica.
Jaguaribe era, naquela época, um expressivo produtor de oiticica, matéria-prima de valor industrial. O arrombamento destruiu também safras inteiras de milho, arroz, feijão e algodão. A catástrofe chegou dois anos depois da seca de 1958, quando o município ainda tentava reerguer sua economia. O golpe foi duplo — e profundo.
Na região do Médio e Baixo Jaguaribe, cerca de 170 mil pessoas foram afetadas direta ou indiretamente. O impacto territorial não se mediu apenas em imóveis destruídos. Mediu-se em anos de atraso, em produções que não voltaram, em famílias que não retornaram.
Reconstrução e memória: uma lição que ainda interpela o presente
O prefeito de Jaguaribe à época, Chico Queiroz, assumiu a liderança da reconstrução ao lado do vigário da cidade e da própria comunidade. Os recursos enviados pelo governo do estado foram insuficientes — não deram nem para limpar os escombros por completo. Chico Queiroz chegou a ameaçar renunciar ao mandato para pressionar por mais apoio. A estratégia funcionou, e a reconstrução avançou, ainda que de forma lenta e penosa.
Sessenta e cinco anos depois, o arrombamento do açude de Orós permanece como símbolo máximo da resiliência sertaneja. Mas também como alerta permanente.
A memória dessa tragédia não serve apenas para homenagear o passado. Ela interroga o presente com força total: quais investimentos em infraestrutura hídrica foram feitos desde então? O que garante que populações ribeirinhas estejam protegidas hoje?
O sertão sabe resistir. Mas merece políticas públicas à altura da sua história.
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