Arte em couro cearense não é apenas ofício. É resistência, identidade e história viva. E é exatamente isso que representa a trajetória de Expedito Celeiro, artesão cearense que transformou o trabalho herdado dos seus antepassados em uma linguagem própria, reconhecida e admirada por artistas, colecionadores e amantes da cultura nordestina.
A história foi contada em entrevista ao Portal AgroMais, durante gravação da TV Portal AgroMais, e revela uma vida moldada pelo couro desde o primeiro dia.
Da oficina ao museu: uma vida moldada pelo couro
Expedito nasceu dentro de uma oficina de artesanato em couro. O pai trabalhava. O avô também. O ambiente de criação era o seu berço literal. Mas o artesão faz questão de marcar a diferença entre o que herdou e o que construiu.
“O que eu aprendi com eles, eu agradeço muito. Mas eu me obriguei a criar um estilo próprio para poder ter saída do meu trabalho”, afirma.
O couro grosso e escuro, usado pelos vaqueiros da caatinga para enfrentar o mato fechado, era o material de origem. Resistente. Pesado. Funcional. Com o tempo, Expedito percebeu que o mercado mudava. Artistas e famosos passaram a buscar peças mais leves, coloridas, personalizadas. Ele se adaptou. Sem perder a raiz.
Hoje, trabalha com um material chamado película — couro leve e maleável, ideal para roupas masculinas e femininas. Cada peça é feita sob medida. Cada modelo é único.
“Se for desfilar 30, 40, 50 pessoas, cada um eu faço um modelo diferente. Eu não gosto de fazer igual”, declara.
Uma das suas peças mais emblemáticas está guardada em um museu local: uma cela feita para um cigano, com couro pintado em cores que ninguém havia visto antes naquele material. A encomenda abriu caminho para um universo de criações.
Tintas da caatinga: a alquimia que mudou tudo
A grande virada na trajetória de Expedito Celeiro veio de uma dificuldade. Ele queria fazer peças coloridas, mas não encontrava tintas para couro. E não encontrava o couro nas cores que imaginava. A solução veio da caatinga.
Sem escola formal. Sem mestre técnico. Apenas observação, tentativa e fé.
O marrom foi extraído da casca do anji, retirado da mata. O vermelho veio da base do urucu, planta amplamente usada na culinária e na cultura popular nordestina. O preto surgiu de um processo inusitado: o couro foi enterrado na lama do rio até escurecer por completo. O branco foi feito com a tinta da caatingueira. E o azul, com anil.
“Eu fiz a tinta porque eu não encontrava a tinta para pintar o couro”, resume o artesão.
Esse conjunto de técnicas não apenas resolveu um problema prático. Criou um vocabulário visual único. Uma estética que mistura natureza, espiritualidade e cultura do sertão em cada peça.
A cela feita para o cigano com essas tintas foi o marco. “O cigano endoidou, e depois não faltou mais encomenda”, conta Expedito.
Cada peça, uma história única
A inspiração de Expedito Celeiro vem da paisagem do sertão. Das flores penduradas na mata. Da roupa dos ciganos. Da indumentária do vaqueiro. Cada elemento da caatinga pode se transformar em bordado, recorte ou textura em couro.
O artesão não sabe explicar de onde vem essa capacidade. Atribui à fé e à necessidade.
“Eu me inspiro muito na paisagem. Eu nasci na mata, vejo a mata tão vestida de flor. E eu faço qualquer peça bem parecida”, diz.
Hoje, o trabalho de Expedito abrange selas, cadeiras, bolsas, chapéus e sandálias. A demanda cresceu além da capacidade de atendimento. Mas o ritmo é o dele. Personalizado. Artesanal. Intransferível.
A história do mestre do couro é também a história de um Nordeste que resiste pela criatividade. Que enfrenta a escassez com inventividade. Que transforma o chão rachado da caatinga em arte vestível e em cultura exportável.
O couro envelhece, mas a tradição se fortalece. No sertão, cultura também se veste.
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