Produtora cearense realiza sonho de 40 anos, aplica tecnologia trazida da França e aponta para a exportação A água de coco envasada ganhou um novo capítulo no agro cearense. Uma produtora rural com quatro décadas de história na cocoicultura colocou em prática um projeto que ficou guardado por anos: envasar a própria água de coco, sem perder o sabor natural da fruta. A iniciativa de Dona Rita Grangeiro representa mais do que uma conquista pessoal. É um marco para toda a cadeia produtiva do coco no Nordeste. O episódio foi destaque em programação especial do Portal AgroMais em comemoração ao Dia da Mulher. O reconhecimento, no entanto, vai muito além do calendário. O que Dona Rita construiu é resultado de decisão estratégica, persistência e parceria com a pesquisa científica. Da prateleira da Embrapa ao campo real A tecnologia chegou ao Brasil em 2013, trazida pelo pesquisador Fernando Abreu a partir de seu pós-doutorado na França. O processo — chamado de envase a frio — preserva as características sensoriais da água de coco sem uso de calor. O resultado é um produto que mantém o sabor in natura depois do envase. Na época, o projeto foi apresentado como planta-piloto na Embrapa e mostrado a produtores. Nenhum deles demonstrou interesse comercial. O projeto foi arquivado. Dona Rita foi a exceção. Ela se apaixonou pela ideia desde o primeiro contato, mesmo sem condições econômicas para viabilizar o projeto naquele momento. O sonho ficou guardado. Três anos atrás, o cenário mudou. O projeto saiu da prateleira, ganhou investimento e tornou-se realidade industrial dentro da própria fazenda. Hoje, a água de coco envasada com esse processo alcança 60 dias de validade — resultado expressivo para um produto que se deteriora rapidamente após a extração natural. O pesquisador segue estudando formas de ampliar esse prazo. O processo ainda não parou. Agregar valor ao coco é questão de sobrevivência O produtor rural que trabalha com coco enfrenta uma equação difícil. Um coco com 2,5 kg de peso bruto contém, em média, apenas 400 ml de água. O restante — mais de 2 kg — seria resíduo sem destinação comercial. Na maioria das propriedades, esse material vai para o descarte sem gerar renda. Na fazenda de Dona Rita, essa lógica mudou. Os resíduos são reaproveitados na própria terra, dentro de um modelo de economia circular. O que seria lixo vira adubo natural. O campo lucra. O impacto ambiental cai. O grande salto, porém, está no envase. Transformar água de coco em produto embalado, com identidade e validade, significa acessar mercados que o produtor jamais alcançaria com o coco in natura. Feiras, redes de supermercados, food services e, no horizonte, o mercado internacional. A lógica é direta: sem embalagem, o produto não viaja. Sem produto processado, não há escala. Sem escala, não há negócio sustentável. A água de coco envasada é, portanto, a ponte entre o campo e o mercado. O olhar do mercado europeu e o sonho da exportação A água produzida com o processo a frio apresenta uma característica que chama atenção imediata: ela é cristalina e límpida. Essa transparência visual corresponde diretamente ao padrão exigido pelo mercado europeu, reconhecido pela rigidez em critérios de qualidade e rastreabilidade. O sonho, declarado com clareza por Dona Rita, é a exportação. Levar a água de coco envasada cearense para além das fronteiras nacionais. Um objetivo que exige regularidade de produção, escala industrial e certificação técnica — mas que começa, justamente, pela inovação no processo. O que está acontecendo na fazenda dessa produtora não é um caso isolado. É um modelo. Mostra que pequenas e médias propriedades rurais podem se inserir em cadeias globais de valor quando combinam conhecimento técnico, visão de negócio e disposição para inovar. No agro cearense, Dona Rita não é exceção. É símbolo. E sua história, registrada e amplificada pelo Portal AgroMais, serve de referência para produtores que ainda estão com projetos guardados na prateleira — esperando o momento certo para sair do papel.
Bônus PGPAF: tomate garante desconto essencial no Pronaf
O bônus PGPAF de março chegou com novidades importantes para a agricultura familiar brasileira. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulgou, em 10 de março, a lista atualizada do Programa de Garantia de Preços para a Agricultura Familiar. Desta vez, dois produtos passaram a integrar o benefício: o tomate, contemplado para produtores de Santa Catarina, e o cacau, válido para agricultores da Bahia, do Espírito Santo, do Pará e de Rondônia. A vigência vai até 9 de abril. No total, 20 produtos estão contemplados na edição deste mês, publicada no Diário Oficial da União. Como funciona o desconto do PGPAF no Pronaf O mecanismo é direto. Quando o preço de mercado de um produto cai abaixo do chamado preço de garantia, o governo federal concede ao produtor um bônus de desconto. Esse valor pode ser usado para abater parcelas ou amortizar o financiamento contratado dentro do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Em termos práticos: o agricultor que pegou crédito pelo Pronaf e está com dificuldades de caixa por conta da queda no preço de comercialização pode usar o bônus para aliviar a dívida. É uma espécie de proteção automática contra oscilações de mercado. Os percentuais de bônus mais expressivos desta edição alcançam patamares bastante significativos. Produtores de batata no Paraná, de cebola no Rio Grande do Sul e de feijão-caupi no Amapá estão entre os mais beneficiados, com descontos que ultrapassam 57%. Quais outros produtos entraram e saíram da lista em março Além do tomate e do cacau, outras mudanças relevantes foram registradas. O arroz passou a bonificar em Goiás. O alho teve a cobertura ampliada para o Distrito Federal e o Rio Grande do Sul. A batata chegou ao DF e a Santa Catarina. O leite entrou para Bahia e Pernambuco. A raiz de mandioca passou a ser contemplada no Amapá e na Bahia. O trigo em Tocantins também foi incluído. Por outro lado, alguns produtos perderam o benefício neste ciclo. Manga do Rio de Janeiro e de São Paulo, leite de Goiás, feijão do Paraná e de Santa Catarina, banana de Sergipe e três produtos de Pernambuco — castanha-de-caju, feijão-caupi e cana-de-açúcar — saíram da lista. Para a horticultura familiar do Nordeste, a inclusão do tomate no programa representa um sinal importante. A região possui núcleos produtivos com vocação clara para a olericultura, especialmente em estados como Ceará e Bahia, onde a pressão de preços em períodos de safra concentrada é uma realidade recorrente. A ampliação progressiva da cobertura do PGPAF para culturas hortícolas abre caminho para que produtores do semiárido e de áreas irrigadas possam, no futuro, contar com esse instrumento de proteção de renda. O que muda na prática para produtores e agentes de crédito Quem já opera com Pronaf ativo deve verificar junto à instituição financeira responsável pelo contrato se há bônus aplicável ao produto que cultiva. O benefício não é automático — é preciso solicitá-lo. A portaria com os valores mensais é divulgada pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), e os custos de produção calculados pela Conab são a base técnica do processo. O acompanhamento mensal dessas listas é, portanto, parte essencial da gestão financeira de qualquer agricultor familiar que opera com crédito rural. Saber quando há bônus disponível pode representar uma redução real no custo da dívida — e uma diferença concreta na sustentabilidade do negócio. A lista completa com todos os produtos contemplados e os percentuais de bônus está disponível no Diário Oficial da União, via Portaria SAF/MDA.
Diesel no agro: como evitar riscos no abastecimento
O diesel no agro voltou ao centro das preocupações do setor produtivo. A Petrobras passou a recusar pedidos de fornecimento além dos contratos já firmados, movimento que ocorre em meio a um descompasso crescente entre os preços praticados internamente e os valores do mercado global. Para o agronegócio brasileiro, a medida acende um sinal amarelo direto: o risco de desabastecimento no curto prazo aumentou, especialmente nas regiões produtoras que dependem de fluxo contínuo de combustível para sustentar colheita, transporte e tratos culturais. A informação foi divulgada pela Reuters em 9 de março e coloca em evidência uma tensão que vai além da logística. O que está em jogo é a previsibilidade operacional de um setor que movimenta parte significativa da economia nacional — e que tem no diesel sua principal fonte de energia no campo. Por que a Petrobras está segurando o diesel O pano de fundo da decisão da Petrobras está na dinâmica do mercado internacional de combustíveis. Quando o preço interno praticado pela estatal se distancia do preço de referência global, surgem desequilíbrios que afetam diretamente a política comercial da empresa. Ao rejeitar volumes extras fora dos contratos vigentes, a Petrobras sinaliza que não está disposta a ampliar sua exposição financeira em um cenário de volatilidade cambial e oscilações no petróleo. Esse tipo de ajuste já foi observado em momentos anteriores da história recente do setor energético brasileiro. A diferença agora é o contexto: o campo está em plena atividade de colheita em várias regiões do país, com demanda por diesel elevada e janelas operacionais estreitas. Qualquer interrupção no abastecimento, mesmo que pontual, tem efeito cascata sobre prazos, custos e produtividade. O impacto direto nas regiões produtoras O agronegócio não funciona sem diesel. Máquinas agrícolas, caminhões de transporte de grãos, sistemas de irrigação e geradores dependem diretamente do combustível para operar. Em regiões como o Cerrado, o Matopiba e o interior do Nordeste — onde a infraestrutura logística ainda é limitada — a dependência de um fornecimento estável é ainda maior. A percepção de risco que se forma agora não é apenas financeira. É operacional. Um produtor que não consegue garantir o volume de diesel necessário para fechar a janela de colheita enfrenta perdas que vão muito além do preço do combustível. O custo de oportunidade de uma colheita atrasada, combinado com a oscilação de preços nas commodities, pode comprometer o resultado de toda uma safra. Distribuidoras e cooperativas, que normalmente absorvem parte dessa demanda via contratos de fornecimento, também sentem o efeito quando a oferta de volumes extras é restrita. A cadeia se aperta em todos os elos. O que muda e quem precisa se adaptar A restrição imposta pela Petrobras reforça um debate que o setor já deveria ter incorporado com mais urgência: a necessidade de diversificação na matriz energética do campo e de gestão mais estratégica do abastecimento. No curto prazo, produtores e gestores de propriedades rurais precisam revisar seus contratos com distribuidoras e antecipar pedidos sempre que possível. A prática de trabalhar com estoques mínimos se torna ainda mais arriscada neste cenário. Quem já tem acordos de fornecimento estabelecidos sai em vantagem. Quem depende de volumes spot enfrenta maior incerteza. No médio prazo, o episódio reacende a discussão sobre o papel do biodiesel, do etanol e de outras fontes alternativas na redução da dependência do diesel fóssil nas operações agrícolas. Programas de eletrificação rural e uso de energia solar em sistemas de irrigação já avançam em algumas regiões, mas ainda estão longe de representar uma alternativa estrutural para a maioria dos produtores brasileiros. O mercado de insumos energéticos para o agro passa por um momento de redefinição. A decisão da Petrobras, por mais que pareça circunstancial, expõe uma vulnerabilidade estrutural que precisa ser endereçada com planejamento de longo prazo — tanto pelo setor privado quanto pelo poder público. Produtores, cooperativas e empresas do agro que ainda não revisaram sua estratégia de abastecimento para os próximos meses têm agora uma razão concreta para colocar esse tema no topo da agenda.