Figo no sertão do Ceará não é mais novidade para quem conhece a história da família Kimura. Descendentes de japoneses, os Kimura decidiram arriscar tudo no semiárido cearense e hoje colhem resultados que chamam a atenção do mercado nacional. A experiência deles é prova de que o Nordeste tem potencial produtivo ainda pouco explorado e que inovação, sacrifício e método fazem a diferença no campo. O projeto não começou com colheita garantida. Antes dos primeiros frutos, a família passou um ano inteiro em fase de experimento. Análises de solo, avaliação das condições hídricas, estudo sobre o regime de ventos da região e planejamento do sistema de irrigação foram etapas obrigatórias antes de qualquer plantio em escala. Era preciso entender o terreno antes de confiar nele. Como a família Kimura adaptou o cultivo ao clima do sertão Um dos maiores desafios encontrados foi o vento. No Nordeste, os ventos constantes causam danos sérios às culturas arbóreas. No início, os Kimura utilizaram o sistema de condução em forma de taça tradicional nas regiões de São Paulo e Sul do Brasil. O resultado foi negativo: os galhos tombavam com frequência, dificultando a colheita, os tratos culturais e as virações da lavoura. A solução veio da adaptação. A família migrou para o sistema espaldado, onde as plantas são conduzidas junto a estruturas de apoio, reduzindo a exposição ao vento e facilitando o manejo. A mudança trouxe melhores resultados e hoje a técnica segue sendo aperfeiçoada a cada ciclo. Na agricultura, como em qualquer negócio, observar e corrigir faz parte do processo. A irrigação controlada e o estudo do comportamento hídrico da planta no semiárido completaram a base técnica do projeto. Com essa estrutura estabelecida, foi possível pensar em escala e em mercado. A estratégia de janela de mercado que diferencia a produção cearense A escolha do calendário de produção não foi por acaso. A família identificou que a época de estiagem no Ceará coincide com um período de escassez de figo no mercado de São Paulo. Esse vácuo representa uma janela comercial valiosa. O ciclo começa com a poda em março. A safra se inicia no final de julho ou começo de agosto e segue até dezembro, podendo se estender até meados de janeiro. É um período estratégico, quando a oferta do produto em outros estados cai e os preços tendem a subir. Hoje, a família já comercializa para outros estados, utilizando logística aérea e terrestre. A operação saiu do modelo de produção familiar para um formato de maior escala, com uso de comunidades locais e estrutura de distribuição profissional. O crescimento, segundo os próprios produtores, é resultado direto da união familiar e da dedicação de todos os envolvidos. O propósito por trás da lavoura: ikigai no semiárido O projeto vai além da produção agrícola. Um dos membros da família mencionou o conceito japonês de ikigai, a razão de viver, como elemento central da iniciativa. Para eles, o cultivo de figo no sertão é também um projeto de vida comunitária, com o objetivo de melhorar a qualidade de vida na região, gerar conhecimento e criar oportunidades para jovens e empreendedores locais. Esse sentido mais amplo é o que sustenta as decisões mais difíceis. Um dos integrantes chegou a redirecionar reservas financeiras pessoais para o projeto e ficou quatro meses longe da família para se dedicar integralmente à lavoura. O investimento foi coletivo de tempo, capital e presença. A visão de longo prazo é estruturar a empresa para que ela possa agregar outros empreendedores e expandir seu impacto social na região. Gerar retorno econômico é importante. Mas gerar transformação no território é o que define o propósito da família Kimura no semiárido cearense. O que o exemplo da família Kimura revela sobre o agro nordestino O caso dos Kimura não é apenas uma história de resiliência familiar. É um sinal de mercado. Ele mostra que o semiárido tem condições produtivas reais para culturas que historicamente estiveram concentradas no Sul e Sudeste do Brasil. Com método, tecnologia adaptada e leitura de mercado, é possível cultivar, escalar e lucrar. Para o agronegócio nordestino, esse tipo de experiência tem valor estratégico. Ela abre precedente para novos produtores, atrai atenção de investidores e coloca o Ceará no mapa de frutas com potencial de exportação. O figo cearense já chegou em outros estados. A pergunta agora é: até onde ele pode chegar?
Preços do milho em 2026: demanda global sustenta mercado
Os preços do milho em 2026 têm uma sustentação importante do lado da demanda. Mesmo diante de uma oferta global expressiva, o consumo da commodity permanece em nível elevado, especialmente nos Estados Unidos, onde a produção de etanol e o volume de exportações continuam absorvendo grandes quantidades do grão. O cenário coloca os próximos relatórios do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) como peças-chave para definir a direção do mercado nos próximos meses. Para o produtor brasileiro, especialmente aquele que aposta na safrinha, esse panorama externo tem leitura direta: o milho colhido no segundo semestre do ano pode encontrar um mercado internacional ainda bastante demandante. Entender os mecanismos que sustentam essa demanda é essencial para tomar melhores decisões de comercialização. Por que a demanda global por milho segue elevada Dois fatores estruturais explicam o consumo firme de milho nos Estados Unidos e no mundo. O primeiro é o etanol. A produção americana de biocombustível à base de milho permanece como um dos maiores destinos internos do grão no país, funcionando como uma âncora de demanda relativamente estável ao longo do ano. O segundo fator é o ritmo das exportações americanas. Mesmo com estoques volumosos, o milho dos EUA segue competitivo no mercado internacional, disputando espaço com Brasil e Argentina na oferta global. Quando a demanda externa se mantém aquecida, o excesso de oferta é absorvido com mais facilidade e a pressão baixista sobre os preços se reduz. Analistas do setor apontam que essa combinação, oferta grande, mas demanda igualmente robusta é o que tem impedido quedas mais acentuadas nas cotações. O equilíbrio é frágil, mas real. O papel decisivo dos relatórios do USDA Os próximos relatórios do USDA serão determinantes para o comportamento dos preços do milho ao longo de 2026. Essas publicações consolidam estimativas de produção, consumo, estoques e exportações de todos os principais países produtores, funcionando como referência global para mercados futuros e decisões comerciais. Qualquer revisão relevante nas projeções de demanda, seja para cima, por aumento no consumo de etanol ou na exportação americana, seja para baixo, por desaceleração econômica ou mudança no câmbio, tende a gerar reação imediata nas cotações da Chicago Board of Trade (CBOT), a principal bolsa de grãos do mundo. Para quem negocia milho no Brasil, acompanhar o calendário e o conteúdo desses relatórios não é opcional. É parte da gestão de risco de qualquer operação comercial relevante. O que esse cenário significa para a safrinha brasileira O Brasil é o segundo maior exportador de milho do mundo, e a safrinha cultivada principalmente no Centro-Oeste após a soja de primeira safra representa a maior parte do volume exportado pelo país. O calendário de colheita da safrinha, que se concentra entre julho e setembro, coincide com um período em que a oferta americana ainda está em formação. Isso coloca o Brasil em posição estratégica. Se a demanda global seguir aquecida e os relatórios do USDA confirmarem consumo elevado nos EUA, o milho brasileiro terá janelas de exportação favoráveis no segundo semestre. O câmbio desvalorizado, quando presente, reforça ainda mais a competitividade do grão nacional no exterior. Para o produtor que ainda não definiu sua estratégia de venda, o momento exige atenção ao mercado externo e não apenas às cotações domésticas. O preço do milho na fazenda brasileira é cada vez mais determinado por forças globais e quem entende esse mecanismo sai na frente na hora de negociar. O que muda, quem ganha e quem precisa se adaptar O cenário atual favorece produtores com capacidade de armazenagem e flexibilidade para escolher o momento de venda. Quem consegue segurar o grão até o pico de demanda internacional tem mais chances de capturar preços melhores. Por outro lado, quem vende na colheita, sob pressão de caixa ou logística, tende a receber menos. Tradings, exportadoras e cooperativas com estrutura para operar no mercado externo estão entre os agentes mais bem posicionados para aproveitar o cenário. Para elas, a demanda firme representa volume de negócios sustentado ao longo do ano. O alerta fica para quem opera sem proteção de preço. Em um mercado global volátil, onde um único relatório do USDA pode mover cotações em questão de horas, a ausência de estratégias de hedge representa exposição desnecessária. O milho de 2026 tem perspectiva positiva, mas o mercado de commodities nunca oferece certezas. Gestão de risco continua sendo o diferencial entre lucro e prejuízo no campo.
Crédito rural no Ceará: como a Ematerce amplia o acesso
O crédito rural no Ceará ganhou um novo instrumento de organização e ampliação. A Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Ceará (Ematerce) apresentou, em reunião do Conselho de Gestão realizada no dia 3 de março, seu Plano Operacional do Crédito Rural. O documento estabelece metas e estratégias para fortalecer o acesso dos agricultores cearenses às políticas de financiamento e expandir o atendimento via assistência técnica em todo o estado. A iniciativa responde a um problema histórico e estrutural do campo nordestino: a distância entre o produtor rural e os mecanismos de crédito disponíveis. Muitas vezes, o agricultor não acessa o financiamento não por falta de elegibilidade, mas por ausência de orientação técnica, dificuldade na elaboração de projetos ou desconhecimento dos caminhos institucionais. O plano da Ematerce atua diretamente nesse gargalo. O que muda na prática para o produtor cearense A principal mudança esperada é o fortalecimento da chamada “ponte” entre o agricultor e o crédito. Na prática, isso significa mais extensionistas capacitados para orientar, elaborar projetos e encaminhar solicitações junto às instituições financeiras. Com o suporte técnico adequado, a chance de aprovação aumenta e o recurso tende a ser aplicado de forma mais eficiente dentro da propriedade. O plano foi estruturado com metas claras de atendimento e estratégias definidas por território. Isso permite à Ematerce priorizar regiões com maior demanda reprimida e concentrar esforços onde o impacto pode ser mais imediato, especialmente em comunidades de agricultura familiar e pequenos produtores do semiárido. A assistência técnica, nesse contexto, deixa de ser apenas um serviço de apoio agronômico e passa a funcionar como instrumento de inclusão financeira no campo. O extensionista rural se torna também um agente de acesso a políticas públicas. Crédito rural e assistência técnica: uma combinação decisiva A relação entre crédito rural e assistência técnica é direta e comprovada. Produtores que contam com acompanhamento técnico no momento de planejar e executar um investimento financiado apresentam melhores índices de adimplência, maior produtividade e mais capacidade de reinvestimento. O suporte reduz erros de aplicação e aumenta a eficiência do recurso público empregado. No Ceará, onde grande parte da produção agropecuária está nas mãos de agricultores familiares, esse vínculo é ainda mais relevante. A agricultura familiar absorve uma parcela significativa dos programas públicos de crédito rural — como o Pronaf —, mas frequentemente enfrenta barreiras burocráticas e técnicas que limitam o acesso efetivo ao financiamento. A atuação da Ematerce, ao estruturar um plano operacional com metas e estratégias sistematizadas, indica uma mudança de postura institucional: de atendimento reativo para planejamento ativo da demanda por crédito no campo cearense. O que o plano revela sobre o papel estratégico da extensão rural A apresentação do Plano Operacional do Crédito Rural ao Conselho de Gestão da Ematerce sinaliza um movimento importante de governança e transparência institucional. Ao formalizarse em metas e estratégias, o trabalho de extensão rural ganha previsibilidade, possibilidade de monitoramento e base para avaliação de resultados. Para o mercado do agronegócio cearense, isso representa uma oportunidade concreta. Empresas de insumos, cooperativas, agroindústrias e instituições financeiras que atuam no estado podem se beneficiar de uma base rural mais capitalizada e tecnicamente assistida. Produtores com crédito bem aplicado compram mais, produzem mais e geram mais movimento na cadeia produtiva. O próximo passo, após a aprovação das diretrizes no Conselho de Gestão, é a execução territorial do plano. Será nessa fase que os números vão revelar o alcance real da iniciativa. O que está em jogo é a capacidade do Ceará de transformar política pública em resultado efetivo no campo.